Conta-se a história de um homem bem-sucedido que vivia em uma grande cidade. Sua casa era confortável, seu trabalho prosperava e seus dias eram sempre intensos. Com o passar do tempo, porém, ele ficou tão envolvido em melhorar o interior da casa que deixou de sair. Instalou luzes mais fortes e se esqueceu do sol. Cavou um poço no porão e se esqueceu da chuva. Pintou montanhas nas paredes e se esqueceu de que as montanhas eram reais. Por fim, substituiu as janelas por espelhos.

Seus filhos cresceram dentro daquela casa. Eram inteligentes, capazes e bondosos. Mas, quando alguém falava sobre o mundo lá fora, eles não compreendiam. “O que existe lá fora?”, perguntavam. “Temos tudo de que precisamos aqui dentro.”

De muitas maneiras, essa é uma parábola da era secular. Não é a história de pessoas perversas, mas de pessoas boas que aprenderam a viver apenas “do lado de dentro”. Dominaram a tecnologia, o conforto, a produtividade e o entretenimento. No entanto, muitas delas jamais estiveram sob um céu espiritual aberto. Nunca se sentiram interpeladas por Alguém maior do que elas mesmas, nem chegaram a perguntar se sua vida faz parte de uma história maior. A porta nunca esteve trancada. Foi simplesmente esquecida.

Para nós, que fomos chamados ao ministério, isso levanta uma questão urgente: Como alcançar pessoas que não estão zangadas com Deus, mas simplesmente vivem como se Ele não fosse necessário?

Ouvindo o silêncio

“Não se preocupem comigo. Eu não acredito em Deus, na Bíblia nem em nada do que vocês estão fazendo aqui. Vim apenas para acompanhar minha amiga.” Essas foram as primeiras palavras de Sarah (nome fictício) quando Wayne, meu colega de ministério, e eu nos aproximamos para recebê-la na igreja que havíamos plantado no coração de Manhattan, em Nova York.

Como uma típica nova-iorquina, Sarah foi direto ao ponto. Respeitamos sua franqueza e procuramos criar um ambiente em que ela pudesse se sentir acolhida, sem pressão nem expectativas ocultas. Naquele momento, em vez de tentar convencê-la ou responder a perguntas que ela não havia feito, simplesmente nos dispusemos a ouvir, inclusive aquilo que ela ainda não estava pronta para expressar. Aprendemos a ouvir o silêncio. Muitas vezes, é assim que começa o ministério entre pessoas secularizadas.

A pessoa secular costuma ser mal compreendida nos círculos cristãos. Frequentemente a imaginamos como alguém abertamente hostil à religião, determinada a rejeitar as Escrituras e ansiosa para contestar a existência de Deus. Pessoas assim certamente existem, mas estão longe de representar a totalidade do mundo secular e pós-cristão.

Para muitos, ser “secular” não significa necessariamente ser ateu. Pode significar não ter filiação religiosa, ser espiritualmente indiferente, desconfiar das instituições, ter se decepcionado com a igreja ou simplesmente ter sido formado em uma cultura na qual a crença em Deus já não é pressuposta.

Essas pessoas não são recipientes vazios esperando que lhes forneçamos informações religiosas. Elas têm convicções morais, experiências dolorosas, questionamentos intelectuais, relacionamentos profundos e esperanças genuínas. Algumas são reflexivas, compassivas e comprometidas com a justiça. Outras estão exaustas, solitárias, ansiosas e em busca de sentido, embora talvez nunca descrevam essa busca como espiritual.

Talvez não estejam perguntando: “Como posso ser salvo?” Mas fazem perguntas como: Quem sou eu além daquilo que realizo? Por que me sinto tão ansioso quando minha vida parece bem-sucedida? Onde posso pertencer sem precisar fingir? É possível confiar em alguém? Minha vida tem algum propósito? Existe esperança além do sofrimento e da morte? Essas perguntas não são obstáculos ao evangelho. Muitas vezes, são a porta de entrada para ele.

Antes de respondê-las, porém, precisamos ouvir. A cultura secular tem um silêncio próprio, produzido pela ausência de transcendência. Por trás de todo o seu barulho, existe um anseio silencioso por admiração, pertencimento, perdão, descanso e esperança. A missão eficaz começa quando aprendemos a ouvir esse anseio.

Antes de explicar

Grande parte do ministério adventista pressupõe que as pessoas já possuem uma imaginação religiosa. Nós as convidamos para uma série evangelística, oferecemos estudos bíblicos, explicamos as profecias ou as incentivamos a frequentar a igreja. Tudo isso continua sendo uma parte valiosa da nossa missão. No entanto, essas abordagens frequentemente partem da premissa de que a pessoa considera a Bíblia confiável, acredita que a religião é importante ou vê a igreja como relevante.

Muitas pessoas seculares, porém, começam em outro lugar. Elas começam pela experiência. Querem saber se o cristianismo produz seres humanos mais compassivos. Perguntam se a igreja é um lugar seguro para suas dúvidas. Observam como os cristãos reagem à injustiça, ao sofrimento, à incerteza e às diferenças. Antes de perguntarem se nossas doutrinas são verdadeiras, talvez queiram saber se nossa vida é digna de confiança. Isso significa que nossa primeira ponte não é um argumento, mas uma presença confiável.

Isso não exige que escolhamos entre presença e proclamação. Jesus jamais separou as duas dimensões. Ele anunciou o reino, mas também o tornou visível. Comeu com as pessoas, entrou em suas casas, tocou os enfermos, acolheu os marginalizados, fez perguntas e chorou diante de um túmulo. A verdade que Ele proclamava estava encarnada em Sua própria vida.

A missão entre pessoas seculares, portanto, exige mais do que encontrar novas maneiras de persuadi-las. Exige que aprendamos a viver fielmente perto delas. Antes de acreditarem no que dizemos, talvez precisem experimentar o tipo de comunidade que nossas crenças são capazes de produzir.

Redescobrindo a beleza da mensagem

Os adventistas possuem uma mensagem extraordinariamente relevante para uma era secular e ansiosa. Infelizmente, às vezes apresentamos nossas crenças principalmente como marcadores de fronteira, maneiras de nos distinguir de outros cristãos ou de corrigir sua teologia. E se também aprendêssemos a apresentar essas mesmas verdades como pontes para os anseios mais profundos do coração humano?

O sábado, por exemplo, é mais do que um argumento sobre o dia correto de adoração. Ele é um protesto contra uma cultura de exaustão. Nossos vizinhos vivem sob a tirania da produtividade. Seu valor é medido pelo desempenho, pela visibilidade, pelo sucesso e pela capacidade de produzir. O sábado anuncia que os seres humanos não são máquinas. Somos amados antes de produzirmos qualquer coisa. A vida é uma dádiva antes de ser uma tarefa.

Por isso, antes de alguém compreender a doutrina do sábado, talvez precise experimentar sua beleza ao redor de uma mesa farta, marcada pela amizade, pela gratidão, pelo silêncio e pelo descanso.

Nossa mensagem de saúde também é muito mais do que informações sobre alimentação. Em sua melhor expressão, ela é uma teologia da dignidade do corpo. Ela declara que o corpo importa, a mente importa, os relacionamentos importam, os hábitos importam e o desenvolvimento pleno do ser humano importa.

Isso cria pontos naturais de conexão por meio de conversas sobre saúde mental, alimentação à base de plantas, comunidades de recuperação, grupos de caminhada, apoio durante o luto, orientação para um estilo de vida saudável e iniciativas de combate à solidão. Nossa postura, porém, é fundamental. Não entramos nas comunidades anunciando: “Somos mais saudáveis do que vocês.” Entramos dizendo: “Sua vida é preciosa, e Deus deseja sua plenitude.”

A segunda vinda de Cristo também pode se tornar uma ponte. Com muita frequência, as pessoas seculares associam a profecia bíblica ao medo, a teorias conspiratórias e à tentativa de escapar do mundo. No entanto, a volta de Jesus é uma das maiores declarações de esperança do cristianismo. Ela diz a uma geração ansiosa que a violência, a morte, a injustiça, os impérios e o fracasso humano não terão a palavra final. Cristo terá.

Portanto, cada uma de nossas crenças comunica uma verdade que o mundo secular precisa ouvir.

A criação diz: “Você não é fruto do acaso.”

O sábado diz: “Você não é uma máquina.”

A saúde diz: “Seu corpo é sagrado.”

A educação diz: “Sua mente importa.”

O grande conflito diz: “Suas escolhas importam em um universo moral.”

O santuário diz: “Deus está restaurando o que o pecado danificou.”

A segunda vinda diz: “A história caminha em direção à restauração.”

A igreja diz: “Você não precisa caminhar sozinho.”

Isso não é uma coleção de doutrinas desconectadas. Juntas, elas formam uma visão coerente e bela da realidade.

Portas de entrada para a fé

Se as pessoas seculares dificilmente entrarão em um templo, a igreja precisa criar lugares em que relacionamentos genuínos possam surgir. É nesse ponto que os Centros Urbanos de Influência podem desempenhar um papel importante. Eles podem assumir a forma de um restaurante informal, espaço de aconselhamento, centro cultural, estúdio de bem-estar, programa de reforço escolar, espaço de trabalho compartilhado, cozinha comunitária, ateliê de arte ou núcleo de apoio às famílias. Sua identidade, entretanto, é mais profunda do que os serviços que oferecem.

Um Centro de Influência é uma expressão do método de Cristo: entrar na comunidade, ouvir as pessoas, atender às necessidades reais, conquistar sua confiança e convidá-las a seguir Jesus.

Esse centro nunca deve se transformar em uma armadilha religiosa, um serviço oferecido com expectativas ocultas. Ele deve ser uma bênção autêntica para a comunidade. Ao mesmo tempo, não pode se reduzir a uma coleção de programas desconectados do discipulado. Ele é porta de entrada da missão, não seu destino final.

Toda ponte deve levar a algum lugar. O serviço deve abrir possibilidades para a confiança. A confiança deve criar espaço para conversas sobre sentido e propósito. Essas conversas devem conduzir naturalmente às práticas espirituais, ao encontro com as Escrituras, ao discipulado e à participação em uma comunidade de fé.

Entre pessoas seculares, essa nova comunidade talvez não se pareça, a princípio, com um culto tradicional. Ela pode começar ao redor de uma mesa de jantar, em uma lanchonete, em um encontro de descanso sabático, em uma comunidade de bem-estar ou entre um grupo de amigos que explora o evangelho de Marcos. Isso não significa diminuir nossa compreensão da igreja. Significa permitir que ela nasça de forma missional.

Do contato à comunidade

Uma jornada de discipulado para pessoas seculares e pós-cristãs normalmente será lenta e não linear. As pessoas entram por portas diferentes. Uma chega por meio de uma conversa sobre ansiedade. Outra, por meio de uma amizade. Alguém começa a buscar depois de enfrentar o luto, a exaustão, a injustiça ou o nascimento de um filho.

Mesmo assim, nossos ministérios precisam conectar intencionalmente diferentes etapas dessa jornada:

– A presença conduz à confiança.

– A confiança cria espaço para perguntas sobre o sentido da vida.

– Conversas significativas conduzem a práticas espirituais.

– Essas práticas despertam curiosidade sobre Jesus e as Escrituras.

– O discipulado conduz à participação em uma comunidade de fé ou em um pequeno grupo.

– Comunidades de fé se multiplicam e formam novos grupos de discípulos e novas igrejas.

Na missão digital, a jornada pode começar com um vídeo sobre ansiedade, um podcast sobre esgotamento ou uma publicação sobre o luto nas redes sociais. Mas ela não deve terminar em visualizações e cliques. O contato digital deve conduzir à conversa, e a conversa, a uma comunidade vivida de forma presencial.

O objetivo é avançar do clique para a conversa, da conversa para a comunidade, da comunidade para o compromisso e do compromisso para a participação na missão de Deus.

Sem essa arquitetura mais ampla, podemos ter programas bem-sucedidos, mas formar poucos discípulos. Com ela, cada ministério passa a fazer parte de uma ponte que conecta compaixão, confiança, verdade, comunidade e multiplicação.

Algo precisa mudar

Alcançar pessoas seculares exigirá mais do que novos programas. Algo precisa mudar na igreja, especialmente em nós, líderes. Precisamos nos tornar melhores ouvintes e discipuladores mais pacientes. Precisamos depender menos de eventos realizados dentro da igreja e assumir um compromisso maior com a presença na vida cotidiana. Precisamos parar de pressupor que as pessoas compreendem nosso vocabulário. Precisamos criar espaço para perguntas honestas, sem assumir uma postura defensiva. Acima de tudo, precisamos amar as pessoas seculares, não como alvos, projetos ou problemas a serem resolvidos, mas como seres humanos pelos quais Cristo morreu e entre os quais o Espírito Santo já está atuando.

Construir pontes não é, em primeiro lugar, uma estratégia de marketing. É, antes de tudo, uma teologia da encarnação. Em Jesus, Deus atravessou a distância. Ele não enviou um argumento do Céu. Ele Se aproximou. Entrou em nossa linguagem, cultura, vulnerabilidade e realidade. Passou da distância para a presença, da abstração para a encarnação e da proclamação isolada para a cura, a comunhão à mesa, a amizade e o convite.

Foi assim com Sarah, nossa amiga secular de Nova York, que dificilmente responderia a uma abordagem cristã tradicional. Certo dia, porém, uma tragédia atingiu seu círculo familiar. Em uma mensagem de texto, ela nos perguntou: “O que vocês diriam a uma pessoa que perdeu toda a esperança e já não encontra propósito na vida?”

Sarah só pôde fazer uma pergunta tão profunda porque já estávamos presentes em sua vida e havíamos conquistado sua confiança. Não éramos estranhos oferecendo respostas prontas, mas amigos com quem ela se sentia segura para compartilhar sua dor e suas perguntas mais difíceis.

Foi nesse ambiente de confiança que pudemos apresentar a esperança e o propósito encontrados em Cristo. Pouco a pouco, Sarah começou a crer, até chegar o dia em que decidiu entregar sua vida a Deus. Ali mesmo, no coração de Manhattan, a mulher que antes afirmava não acreditar em Deus finalmente O encontrou.

Há pouco tempo, Sarah acompanhou às águas batismais a terceira pessoa que discipulou desde que ela mesma entregou a vida a Cristo. Aquela que um dia entrou na igreja dizendo não acreditar em Deus agora ajuda outras pessoas a encontrá-Lo.

Conclusão

Talvez o mundo secular não esteja esperando mais uma instituição religiosa. Mas pode estar esperando encontrar pessoas que vivam como se a criação fosse sagrada, o descanso fosse possível, o corpo tivesse valor, a comunidade pudesse curar, a esperança fosse real e Jesus estivesse voltando.

O homem que só vivia dentro de casa não precisa que batamos com raiva em suas paredes. Talvez possamos começar “abrindo um pouco a porta” e “deixando entrar um pouco de ar”. Uma vez despertado, o coração pode começar a fazer suas próprias perguntas. E talvez, um dia, aquele homem e seus filhos saiam de casa, olhem para cima e se lembrem do Céu.

“Lembrem-se […] [de] que Eu sou Deus, e não há outro; eu sou Deus, e não há outro semelhante a Mim. Desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade revelo as coisas que ainda não sucederam. Eu digo: ‘O Meu conselho permanecerá em pé, e farei toda a Minha vontade’” (Is 46:9, 10).

Bledi Leno, diretor do Centro de Missão para Seculares e Pós-Cristãos da Associação Geral