O Uruguai se consolidou, em 2023, como o país menos religioso da América Latina: 47,3% dos entrevistados declararam não professar nenhuma religião.¹ Essa realidade tem profundas raízes históricas e políticas. Um dos fatores que impulsionaram esse processo foi o jacobinismo, doutrina política surgida na Revolução Francesa, marcada pelo republicanismo radical, pela defesa de um Estado centralizado e por uma postura anticlerical. No século 19, movimentos de inspiração jacobina promoveram no Uruguai um forte secularismo, que buscava ampliar a supremacia do Estado sobre instituições da sociedade civil, incluindo a Igreja. Esse processo culminou na separação entre Igreja e Estado, formalizada na Constituição de 1918, e em medidas que reduziram a presença religiosa na esfera pública.²
Nesse contexto, a Igreja Adventista enfrenta um grande desafio. Após mais de 120 anos de presença no país, são pouco mais de 7 mil adventistas, cerca de 0,21% da população.³ Esse dado contrasta com a realidade de um país que apresenta elevados índices de qualidade de vida, igualdade e democracia, mas também uma preocupante taxa de suicídio. Em 2024, foram registrados 21,35 suicídios por 100 mil habitantes, e cerca de 16 uruguaios tiram a própria vida a cada semana.⁴ Esse contraste levanta uma questão crucial: Como ajudar pessoas que vivem em uma sociedade secularizada a encontrar sentido, esperança e propósito?
Jesus é nosso modelo: Ele Se aproximava das pessoas, comia com pecadores e atravessava as barreiras sociais e religiosas de Seu tempo. Como escreveu Ellen White, “Cristo não fazia distinção de nacionalidade, posição ou credo. Os escribas e fariseus desejavam tomar os dons celestiais um privilégio local e nacional e excluir o resto da família de Deus no mundo. Cristo, porém, veio derrubar todo muro de separação”.⁵ Sua missão combinava integração e fidelidade. Da mesma forma, nossa abordagem precisa ser marcada pela proximidade e pelo respeito, criando espaços para conversas sobre família, saúde, estudo da Bíblia, alimentação, propósito e sentido da vida, sem pressão ou exigência de compromisso imediato.
A seguir, estão algumas recomendações que podem ser aplicadas em contextos secularizados:
1. Fundamento: caráter e autenticidade. Ser antes de fazer. A verdadeira liderança começa no coração e se reflete no lar.
- O princípio orientador: siga o método de Cristo.
- Fé e ação: use as ferramentas que Deus lhe deu. Ore fervorosamente, mas também aja com confiança.
- Propósito genuíno: busque a espiritualidade, não a popularidade. Seu objetivo é fazer com que as pessoas se esqueçam de você e se lembrem de Cristo.
- Primeira equipe missionária: mantenha sua família emocional e espiritualmente forte. Ela é sua equipe missionária mais importante.
- Cultive sua mente: não negligencie o estudo das Escrituras. As pessoas querem ouvir Cristo por meio da Palavra, não um artista. Evite excentricidades.
2. Estratégia: presença e imersão. A missão acontece quando você se integra genuinamente ao tecido de sua comunidade.
- Imersão social: seja amigável e mude a relação de “se bem com todos”. Você encontrará surpresas e oportunidades em cada pessoa com quem se relacionar.
- Conexão autêntica: vá além do supermercado. Faça compras nas feiras populares. Ser conhecido nesses espaços pode criar conexões que você nem imagina.
- Consciência cultural: aproveite as férias para conhecer a cultura local. Use esses momentos para cultivar memórias com a família, não apenas para produzir conteúdo para as mídias sociais.
- Maximize os recursos: não se deixe limitar pela falta de orçamento. Aproveite ao máximo os recursos disponíveis e procure ajuda de forma proativa.
- Comunicação estratégica: os canais de comunicação da igreja, como rádio e mídias sociais, apresentam grande potencial para alcançar o público. É necessário desenvolver uma estratégia específica e dedicar esforços para otimizar seu uso.
- Programação relevante: inclua cursos sobre bem-estar, família e mudança de hábitos. Ofereça essas atividades tanto presencialmente quanto de forma virtual, ampliando o alcance e possibilitando a participação de pessoas idosas e de outros públicos.
3. Método: diálogo e ensino. A forma como a fé é comunicada é tão importante quanto a própria mensagem.
- Diálogo sincero: nunca discuta sobre fé. Converse, dialogue, troque ideias. As pessoas observam sua reação diante de uma discordância tanto quanto a consistência de seus argumentos.
- Valorize o ensino: evite eventos que concorram com os estudos bíblicos. Respeite a rotina das pessoas e esteja disponível quando for convidado a participar de seus momentos de convivência.
- Fortaleça a comunidade: esteja com os membros da comunidade adventista sempre que puder. Ame-os e ensine-os também a serem missionários.
4. Funcionalidade: adaptação do espaço e dos serviços. Garanta que a estrutura física e os serviços da igreja apoiem a missão.
- Prioridade: adapte serviços, horários e atividades para alcançar mais pessoas.
- Espaços abertos e acolhedores: faça mudanças funcionais para tornar os edifícios mais visíveis, acolhedores e acessíveis à comunidade.
- Serviços com propósito: desenvolva iniciativas relevantes para o contexto local, colocando cada uma delas sob a orientação de Deus.
Nosso carinho é marcado pelo Mestre. Andemos em Seus passos, colocando nossos esforços em Sua direção. O trabalho é vasto, e a Palavra viva deve ser revelada em nossa vida. Mesmo diante de tempos difíceis, cremos que testemunharemos milagres: conversões improváveis e o resgate de pessoas que ainda clamam, mesmo sem saber, pelo Salvador.
Saul Gaspar, atuou em centros de influência na América do Sul. E hoje é pastor na Bahia.
Referências
¹ “Uruguay es el país menos creyente de América Latina: el 47,3% aseguró no profesar ninguna religión”, El Pais, disponível em: link.cpb.com.br/e9cb4f.
² “Por qué Uruguay es el país más secularizado de la América que evangelizó España? Hay muchas razones”, Religión en Libertad, disponível em: link.cpb.com.br/8c43e8.
³ “Uruguay Union of Churches Mission”, SDA Encyclopedia of Seventh-Day Adventists, disponível em: link.cpb.com.br/abd369.
⁴ “Suicidios em Uruguay. Nueva orientación de las políticas públicas ante evolución negativa”, Ministerio de Salud Pública, disponível em: link.cpb.com.br/4ad9fc
⁵ Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021), p. 11.
