LIZZIE CAROLINE
Sou pernambucana, nascida e criada em um lar adventista. Desde pequena, estive envolvida nas atividades da igreja, mas sempre carreguei o desejo de ir além do comum. Em 2017, participei do projeto Um Ano em Missão, em Recife, uma experiência que marcou profundamente minha compreensão de propósito e chamado.
Em 2018, iniciei minha atuação como advogada na Associação Pernambucana, onde servi por sete anos. Em 2025, recebi o chamado para atuar na Associação Paulista Sul, em São Paulo, onde sigo atualmente.
Ao longo dessa jornada, estive envolvida em diferentes ministérios, especialmente com Aventureiros, Jovens e Desbravadores, áreas pelas quais tenho grande carinho. No entanto, uma das maiores lições que aprendi foi que, mais importante do que ter preferências, é estar disponível.
Hoje sigo assumindo novos desafios, com a convicção de que servir a Deus significa estar disposta a atuar onde a igreja mais precisa.
O que a juventude adventista espera de seus pastores e da igreja? A palavra que melhor define essa expectativa é: apoio. Os jovens estão em uma fase de descoberta de dons, talentos e propósito e, nesse processo, o papel do pastor é essencial. Mais do que líderes, eles são mentores espirituais capazes de enxergar potencial onde, muitas vezes, o próprio jovem ainda não consegue ver. Quando um pastor apoia, ele não apenas motiva; ele ajuda a direcionar destinos.
Falo isso a partir da minha própria experiência. Houve líderes que olharam para mim e decidiram investir: incentivaram-me a participar de capacitações teológicas, cursos de plantio de igrejas e outros treinamentos. Mesmo sendo uma das mais jovens em alguns desses ambientes, fui encorajada a permanecer, aprender e crescer.
Esse investimento fez toda a diferença. Foi nesse contexto que surgiu o convite para participar do projeto Um Ano em Missão, uma experiência que não apenas fortaleceu minha fé, mas redefiniu minha visão de vida e ministério.
Hoje, posso afirmar que esse cuidado e incentivo moldaram a maneira como enxergo minha própria profissão. O Direito deixou de ser apenas um meio de sustento e se tornou um instrumento de missão. Minha atuação profissional passou a ter propósito espiritual — uma extensão do meu chamado.
Por isso, é fundamental que pastores e líderes compreendam: há um potencial imenso sendo formado nos jovens da igreja, mas esse potencial precisa ser cultivado.
Invistam tempo. Invistam atenção. Invistam oportunidades. Incluam os jovens em treinamentos, envolvam-nos em projetos, desafiem-nos a sair da zona de conforto e confiem a eles responsabilidades reais. O apoio de um líder pode ser o ponto de partida para que um jovem descubra não apenas o que faz bem, mas também para que entenda para que foi chamado.
Compreendo que discipular um jovem passa, necessariamente, por comunidade e pertencimento. No livro Como Revivar a Igreja no Século 21, Russell Burrill apresenta uma verdade essencial: a igreja deve ser um espaço que restaura comunidades à imagem de Deus – comunidades marcadas pela interdependência, e não pelo individualismo. Como o próprio autor destaca, Deus não cria indivíduos isolados, mas uma comunidade que reflete Sua natureza relacional.
Vivemos, porém, em uma cultura que valoriza a autonomia e o sucesso individual. É justamente nesse contexto que surge um dos grandes desafios do discipulado hoje: o choque geracional.
As novas gerações estão imersas em um ambiente digital, dinâmico e acelerado. Elas se comunicam, aprendem e se conectam de maneiras diferentes. Nesse cenário, o papel do pastor não é competir com essa realidade, mas compreendê-la e redimi-la, tornando-se uma ponte entre a verdade eterna e as novas formas de comunicação.
Quando há disposição para ouvir, aprender e caminhar junto, o discipulado se torna relevante sem perder sua essência. Afinal, discipular vai além de métodos; envolve vida em comunidade.
Não se trata apenas de frequentar a igreja, mas de viver em mútua dependência, refletindo o caráter de Deus nos relacionamentos. O jovem precisa estar inserido em um ambiente em que não apenas participe, mas também se sinta necessário, conhecido e cuidado.
Além da comunidade, é indispensável reconectar os jovens com a Palavra de Deus. A Bíblia é uma fonte inesgotável de conhecimento, transformação e propósito. No entanto, a realidade é que muitos jovens têm dedicado mais tempo a “rolar o feed” do que a se aprofundar nas Escrituras.
Diante disso, a igreja precisa agir com intencionalidade: ocupar esses espaços e usar a tecnologia como aliada na pregação do evangelho. Estar presente onde os jovens estão, sem diluir a mensagem, é um dos grandes desafios – e também uma grande oportunidade.
Por fim, discipular as novas gerações não é apenas ensinar; é caminhar junto. O jovem precisa olhar para a igreja e sentir: “eu pertenço a esse lugar”. Porque, no fim, a nova geração não precisa apenas de programas, mas de pessoas – pessoas que caminhem juntas, que invistam e que revelem, na prática, o amor de Cristo.
DANIEL TAPIA
Tenho 24 anos, sou peruano e recém-formado em Medicina pela Universidad Peruana Unión, no Peru. Carrego como propósito servir ao próximo de forma integral, promovendo cuidado na saúde física e mental e, sobretudo, no aspecto espiritual, compartilhando a mensagem de Deus com todos.
Os jovens adventistas, ao longo dos anos, têm enfrentado diversas dificuldades em sua caminhada cristã. Em um mundo no qual a religião é comumente motivo de desprezo ou afastamento, muitos procuram caminhos que lhes permitam se encaixar na sociedade. Nesse contexto, espera-se que a igreja ofereça acolhimento, aliando participação, ensino e aprendizado, de modo que os jovens direcionem sua vida a um propósito maior: a salvação e a missão de levar outros a Cristo.
Quando o jovem se envolve ativamente nas atividades da igreja, seu senso de pertencimento é fortalecido. No entanto, muitos ainda se sentem afastados ou isolados, seja por diferenças de perspectiva em relação às gerações mais experientes ou por atitudes que soam como julgamento. Por isso, o ensino da igreja e do pastor deve ir além da salvação e da missão, abrangendo também aspectos práticos da vida, como formação de caráter, fortalecimento emocional, propósito e orientação para relacionamentos.
A igreja, fundamentada na Bíblia, possui um vasto conteúdo capaz de atrair e edificar os jovens. Criar espaços onde eles possam expressar opiniões e sugerir ideias representa um avanço significativo, pois valoriza sua participação e sua visão de mundo. Nesse processo, o pastor exerce papel essencial ao orientar como viver de maneira equilibrada em meio aos desafios contemporâneos.
Para isso, é fundamental que o pastor se aproxime dos jovens, participando de suas atividades e compreendendo sua realidade, seus desafios e sua linguagem. Essa proximidade favorece uma comunicação mais eficaz e permite direcioná-los melhor na missão de alcançar outras pessoas.
Além disso, o pastor deve atuar como conselheiro, assumindo, em muitos casos, um papel semelhante ao de um pai. Muitos jovens não tiveram referências familiares sólidas e encontram na liderança espiritual apoio, orientação e exemplo. Sua postura, atitudes e testemunho influenciam profundamente, pois os jovens aprendem não apenas pelo que ouvem, mas também pelo que observam.
O caminho para discipular as novas gerações passa por ensinar a Palavra de Deus com fidelidade, viver o que se prega e caminhar mais perto dos jovens. Não basta apenas transmitir conhecimento das Escrituras; é essencial construir relacionamentos de confiança, nos quais haja diálogo, troca de ideias e aplicação prática dos princípios bíblicos no cotidiano — no trabalho, nas amizades, no lazer e na vida da igreja.
MALENA GAONA
Tenho 26 anos e nasci em Encarnación, Paraguai. Servi como missionária nos projetos “Um Ano em Missão” (OYIM AbaC 2022) e “Servicio Voluntário Adventista” (SVA APLaC 2024), atuando como professora de espanhol do Sul e jovem e, atualmente, faço parte de vários ministérios na minha igreja local, como a comissão de jovens, o Ministério de Comunicação e o clube de Desbravadores.
Estou sempre ativa e envolvida em diferentes projetos missionários, disposta a servir onde Deus me chamar. Ao longo desse caminho, Deus me permitiu conhecer muitos jovens e, nas próximas linhas, desejo compartilhar o que eles pensam e sentem sobre os pastores e a igreja.
De distintos pontos de vista, muitos jovens adventistas concordam que esperam de seus pastores e líderes, acima de tudo, proximidade, interesse genuíno e autenticidade. Não se trata apenas de receber ensinamentos, mas de se sentir ouvido, valorizado e parte ativa da igreja.
Valoriza-se muito quando um líder se aproxima de forma real: quando pergunta como o jovem está, quando o acompanha em seus desafios pessoais e quando está presente além do púlpito. Essa proximidade gera confiança e abre portas para um crescimento espiritual mais sincero.
Ao mesmo tempo, os jovens esperam confiança em suas capacidades. Muitas vezes, há talentos que não se desenvolvem por falta de oportunidades ou por medo de errar. Em vez de descartar alguém na primeira tentativa, espera-se correção com amor, paciência e orientação, compreendendo que o crescimento também envolve erros.
Outro aspecto-chave é o exemplo. Os jovens não querem apenas ouvir o que devem fazer, mas ver vidas que reflitam Cristo no cotidiano: na forma de tratar os outros, na empatia, na alegria e na coerência entre o que se diz e o que se vive.
Além disso, há uma necessidade muito evidente de que a igreja aborde os desafios reais dessa geração, como ansiedade, pressão social, identidade e lutas emocionais. Os jovens buscam uma orientação espiritual que também seja prática, atual e sensível às suas realidades.
Quanto ao discipulado, creio que ele não deve se basear em ideias humanas, mas em princípios bíblicos. A verdadeira mudança começa quando Cristo está no centro da vida, pois é Ele quem transforma hábitos, pensamentos e decisões.
O maior modelo continua sendo Jesus. Ele escolheu pessoas comuns, até desacreditadas por outros, mas enxergou seu potencial. Ele escolheu jovens! Por meio do amor, da paciência e do tempo compartilhado, formou-os para uma missão maior. Por isso, discipular não é apenas ensinar conteúdos, mas acompanhar, caminhar juntos, investir tempo, ouvir e guiar com amor. Trata-se de um relacionamento, não de um programa.
Seguindo o modelo de Cristo, o discipulado torna-se uma experiência transformadora, tanto para quem guia quanto para quem é guiado.
JOÃO ARGENTON
Cresci em um lar pastoral onde, desde cedo, aprendi a dedicar tempo, recursos e talentos à obra de Deus. Experiências simples — como esperar longos períodos dentro de um carro até que uma “breve comissão” terminasse, ou cumprimentar pessoas desconhecidas na igreja — contribuíram para me ensinar a amar a missão e a me comprometer com ela.
Com o passar dos anos, esse ambiente despertou em mim um claro senso de chamado. Pela graça de Deus, tive a oportunidade de participar de missões transculturais, incluindo uma experiência marcante em Guiné-Bissau, no continente africano, e outra no Paraguai, na América do Sul. Atualmente, curso o Ensino Médio no Instituto Adventista de Ensino de Santa Catarina (IAESC) e sigo convicto do meu chamado para o ministério pastoral.
Muito se fala hoje sobre como alcançar as novas gerações, mas, na prática, ainda existem alguns equívocos. Ao contrário do que muita gente pensa, os jovens não esperam – nem precisam – de pastores blogueiros, famosos ou coaches espirituais. Também não são atraídos apenas por estruturas grandiosas ou templos sofisticados. O que realmente chama a atenção da geração jovem – da qual faço parte – é a autenticidade e a transparência. As novas gerações querem líderes reais, não virtuais. Não esperam líderes perfeitos, mas pessoas que vivam de forma coerente com aquilo que pregam.
Além disso, os jovens querem uma igreja acolhedora, que se importe de verdade. Precisam de pastores de carne e osso, que sintam e compreendam suas lutas e caminhem ao seu lado. Homens de Deus que liderem pelo exemplo, e não só com palavras; que, por trás de lindos sermões, vivam o que ensinam. Esses são os verdadeiros influencers!
Acredito que a melhor maneira de discipular as novas gerações é por meio da amizade. Embora essa resposta pareça simples, ela é profundamente desafiadora na prática. Não há meio mais eficaz de alcançar um jovem do que sendo acessível e compreensível, pois somente quando vínculos de amizade são estabelecidos torna-se realmente possível fazer novos discípulos. Uma vez formados, esses vínculos podem durar por toda a eternidade.
Nesse contexto, um grande erro que muitos cometem é tentar, por si mesmos, reformular ou “consertar” o pensamento e o caráter do jovem. Contudo, ao fazer isso, acabam fechando o coração do ouvinte à mensagem. Devemos nos lembrar de que a obra de transformação do caráter exige tempo e pertence ao Espírito Santo. Nossa tarefa no discipulado é sermos amigos e tornar a mensagem acessível por meio do nosso exemplo. O maior desafio – e também o objetivo do discipulador – é tornar a própria vida um memorial do amor de Deus.
