Em poucos anos, a sociedade testemunhou mudanças geracionais mais rápidas do que em qualquer outro período histórico. Crianças nascidas a partir de 2010, conhecidas como Geração Alfa, cresceram cercadas por telas, aplicativos, redes sociais e jogos digitais. Elas não precisaram se adaptar à tecnologia: já nasceram imersas nela.¹
Envolvida em um ambiente saturado de informações, a Geração Alfa vive em constante hiperconectividade, na qual relações, conteúdos e experiências se multiplicam continuamente, influenciando a forma de aprender, se relacionar e construir identidade. A exposição contínua a esse volume de estímulos tende a fragmentar a atenção e reduzir a sensibilidade espiritual.²
Segundo a jornalista Julia Fregonese, trata-se da maior população infantil da história, marcada pela presença da tecnologia desde os primeiros anos de vida — fator que impacta sua relação com a autoridade e o desenvolvimento da aprendizagem.³
Diante desse cenário, surgem questões centrais: Como conduzir essa geração a uma comunhão pessoal com Deus? Como tornar a igreja um ambiente que favoreça o crescimento espiritual em meio a tantas distrações?
A Bíblia apresenta um princípio essencial: “Busquem em primeiro lugar o Reino de Deus e a Sua justiça” (Mt 6:33). Discipular a Geração Alfa é conduzi-la a uma experiência com Deus e ajudá-la a compreender que o relacionamento com Ele é o fundamento da vida espiritual.
Uma tarefa imediata
A formação de uma fé resiliente nas crianças é um desafio urgente. Em um contexto marcado pelo secularismo e pelo individualismo, a igreja precisa ressignificar seus métodos de discipulado.
Dados da Secretaria da Divisão Sul-Americana indicam que, nos últimos dez anos, a cada 10 jovens que chegam à denominação, 14 saem (entre 17 e 30 anos de idade).4 Esse desinteresse espiritual pode surgir ainda na adolescência: estima-se que cinco em cada dez filhos de lares cristãos se desconectam das práticas regulares da igreja nessa fase da vida.
Uma pesquisa realizada pela Awana, em parceria com o Grupo Barna, aponta três elementos essenciais para uma fé duradoura: pertencer, acreditar e tornar-se.5 As crianças precisam sentir parte de uma comunidade de fé, desenvolver confiança em Jesus por meio das Escrituras e viver aquilo que aprendem.
Esse processo se fortalece por meio de uma abordagem relacional e intergeracional. Mais do que ouvir e memorizar conteúdos, as novas gerações necessitam de experiências significativas e vínculos reais. Assim, o discipulado deixa de ser mera transmissão de informação e passa a ser formação de vida. Como afirma Lucas Leys e David Koba: “A igreja não é um lugar para ir, mas uma família à qual pertencer.”6 Esse princípio precisa ser vivido, especialmente no cuidado com a Geração Alfa.
A base da fé
Em um mundo instável, em que o excesso de informações torna as novas gerações mais vulneráveis a influências superficiais, a Bíblia permanece como fundamento sólido e seguro. Como afirma 2ºTimóteo 3:16 e 17, a Palavra de Deus orienta, corrige e prepara o cristão para viver de forma íntegra. Mais do que um conjunto de princípios, ela conduz a um relacionamento com Deus.
Apresentar a Bíblia de forma criativa, contextualizada, profunda e relevante é um desafio atual, especialmente ao lidar com a Geração Alfa. Isso não significa competir com a tecnologia, mas utilizá-la como ferramenta pedagógica e missionária.
O lar ocupa um papel central nesse processo. É nele que se constrói a base do amor a Deus. Os pais refletem esse amor e atuam como os primeiros professores; ao integrarem o estudo bíblico e a oração à rotina familiar, tornam a fé dos filhos em meio a um mundo cada vez mais complexo.
A fé também se desenvolve por meio de outros relacionamentos. Crianças e adolescentes aprendem observando a vida de adultos que vivem a fé na prática. A família apresenta esse fundamento, enquanto a igreja amplia esse aprendizado ao promover o convívio entre gerações.
Sobre esse relacionamento intergeracional, Ellen White aconselhou: “Há uma bênção no convívio dos mais idosos com os mais jovens. […] Aqueles cujo apego à vida está se enfraquecendo necessitam do benéfico contato com a esperança e a vivacidade da juventude. E os jovens podem ser auxiliados pela sabedoria e a experiência dos idosos.”8
Discipulado intencional
O discipulado tem como propósito conduzir a um relacionamento pessoal com Cristo. Jovens valorizam experiências espirituais autênticas e relacionamentos significativos mais do que conteúdos teóricos. Dados mais recentes reforçam que essa geração busca pertencimento, propósito e relações de confiança como elementos centrais na construção da fé.9
Práticas simples e intencionais fazem diferença: oração, estudo bíblico aplicado à vida e participação em ações de serviço. Ao longo do tempo, esses hábitos e experiências contribuem para o desenvolvimento de uma fé pessoal, madura e consistente.
A Geração Alfa valoriza a participação. Não deseja apenas observar, mas envolver-se. Quando a igreja integra suas atividades à missão, cria experiências significativas que fortalecem o crescimento espiritual. Essa vivência conecta duas dimensões da fé: a vertical, no relacionamento com Deus, e a horizontal, no serviço e no cuidado com o próximo. Uma fortalece a outra.
Para isso, o discipulado precisa ser intencional. Planejamento, objetivos claros e acompanhamento são essenciais. A igreja se torna mais eficaz quando promove a integração entre gerações por meio de programas, grupos de estudo e ações comunitárias.
Esse compromisso com o discipulado também está alinhado às orientações da Igreja Adventista do Sétimo Dia quanto à formação espiritual e ao envolvimento das novas gerações na missão.10
Além disso, é necessário criar oportunidades concretas de envolvimento. Crianças e adolescentes que participam da missão desenvolvem um vínculo mais forte com a fé. Estudos indicam que aqueles que se envolvem ativamente dificilmente se afastam.11
Esse cuidado é ainda mais importante diante dos desafios atuais. A secularização e o avanço da tecnologia impactam diretamente a formação espiritual, especialmente na infância e na adolescência. Nesse contexto, líderes podem subestimar seu papel, e a falta de apoio aos ministérios infantis pode comprometer o desenvolvimento da fé.
Por outro lado, pesquisas mostram que a influência de líderes e professores é significativa, especialmente entre os 12 e os 25 anos. Quando há intencionalidade, apoio familiar e convivência intergeracional, o desenvolvimento da fé se torna mais consistente.
Ellen White alertou: “Tem sido dada bem pouca atenção a nossas crianças e jovens, e eles têm deixado de se desenvolver na vida cristã como deveriam porque os membros da igreja não os consideram com ternura e compreensão no desejo de vê-los crescer espiritualmente. Em nossas grandes igrejas poderíamos fazer muito por nossos jovens.”12
Missão em um mundo hiperconectado
A realidade digital exige adaptação. Se a Geração Alfa é conectada e interativa, a igreja precisa considerar isso ao ensinar e discipular. Conteúdo e metodologia devem despertar interesse e promover transformação. Ainda assim, a experiência presencial permanece essencial.
A presença digital deve apoiar a missão, não substituí-la. O discipulado “cara a cara” envolve toda a igreja. Isso inclui adaptar métodos, capacitar líderes e valorizar relacionamentos. Também significa abrir espaço para que as novas gerações participem ativamente.
Quando crianças e adolescentes assumem responsabilidades — no louvor, na recepção, em pequenos grupos, na comunicação ou em ações missionárias — desenvolvem senso de pertencimento e propósito. O protagonismo fortalece a fé.
Nesse contexto, torna-se fundamental desenvolver estratégias intencionais que fortaleçam o discipulado desde a infância, conectando ensino, experiência e missão de forma integrada. Ellen White aconselhou: “Quando um jovem se converte, não deve ser deixado ocioso; deve-se dar a ele alguma coisa para fazer na vinha do Mestre, de acordo com sua capacidade, pois o Senhor deu a cada um a sua obra.”13
Fé construída desde a infância
Nesse cenário, a Igreja Adventista do Sétimo Dia desenvolveu o currículo Vivos em Jesus, um programa global voltado ao discipulado de crianças no contexto da Escola Sabatina. Seu objetivo é promover um relacionamento vivo com Cristo desde os primeiros anos de vida, por meio de experiências práticas e significativas. A proposta se baseia em três pilares: graça, caráter e missão.
Mais do que ensinar conteúdos, busca formar uma fé que se expressa na vida diária. Esse processo envolve não apenas a igreja, mas também o lar e a comunidade. O discipulado se torna parte da rotina e contribui para a construção de uma identidade cristã sólida.
Conclusão
Uma igreja comprometida com as novas gerações discipula crianças, adolescentes e jovens, promove relacionamentos significativos entre as diferentes idades e os envolve na missão. Sem essa visão, o afastamento da fé torna-se mais provável.
A Bíblia evidencia o papel das novas gerações na missão (Jo 2:28) e orienta a transmissão da fé no ambiente familiar (Dt 6:4-9). A fé se fortalece quando há integração entre Bíblia, oração, serviço, relacionamentos e convivência entre gerações. Em um mundo complexo, as novas gerações precisam de direção clara — e essa direção permanece centrada nas Escrituras.
Jesus destacou o valor das crianças ao afirmar: “Deixem os pequeninos e não os impeçam de vir a Mim, porque dos tais é o Reino dos Céus” (Mt 19:14). O discipulado exige intencionalidade, cuidado e compromisso, conduzindo as novas gerações aos pés de Cristo.
Mais do que manter as novas gerações na igreja, o desafio é envolvê-las na missão. Uma igreja que as acolhe, as discipula e confia nelas não apenas preserva a fé, mas também contribui para o avanço do evangelho.
Suzete Águas, líder do Ministério da Criança e do Adolescente para a região Sul do Brasil
Referência
1 Brenda Chérolet, “Geração Alpha: O Que é e Como Lidar?”, disponível em <link.cpb.
com.br/299fe6> , acesso em 15/4/2026.
2 Georgie Walsh, “7 Características da Geração Alfa que Você Precisa Conhecer Para 2025”, disponível em <https://link.cpb.com.br/87f5ff> , acesso em 15/4/2026.
3 Julia Fregonese, “Geração Alfa: Reflexos do Maior Grupo de Indivíduos da História”, disponível em <link.cpb.com.br/625175>, acesso em 15/4/2026.
4 Felipe Lemos, “Relatório Aponta Tendências Para Adventismo Sul-Americano”, disponível em <link.cpb.com.br/385dec>, acesso em 15/4/2026.
5 Barna Group, Children’s Ministry in a New Reality (Ventura, CA: Barna Group, 2022).
6 Lucas Leys e David Noboa, Proyecto Discipulado (Dallas, TX: E625, 2020), p. 13.
7 Paulo Teixeira, “A Menina, a Revista e o Smartphone: Uma Reflexão Sobre Engajar a Geração Alfa com a Palavra de Deus”, disponível em <link.cpb.com.br/518ce0>, acesso em 15/4/2026.
8 Ellen G. White, Beneficência Social (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2023), p. 164, 165.
9 Springtide Research Institute, “Thirteen: A First Look at Gen Alpha”, disponível em <link.cpb.com.br/5f41aa>, acesso em 15/4/2026.
10 Igreja Adventista do Sétimo Dia, Manual da Igreja (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2025), p. 47-51.
11 Barna Group, Children’s Ministry in a New Reality.
12 Ellen G. White, Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2024), p. 32.
13 Ellen G. White, Conselhos Sobre a Escola Sabatina (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021), p. 51.
