Falar em engajar pessoas no evangelismo pessoal sem considerar a função pastoral é comprometer a eficácia dessa atividade na igreja local. A Palavra de Deus deixa claro que a prioridade do trabalho ministerial é desenvolver habilidades e competências nos membros para a obra missionária, segundo os dons concedidos por Deus (Ef 4:11-16). Todos os que fazem parte do corpo de Cristo devem unir seus esforços aos dos pastores e oficiais da igreja na missão de ir e fazer discípulos (Mt 28:18, 19).
O pastor deve ser um especialista em evangelismo pessoal. Espera-se que, sob sua liderança, os membros se envolvam diligentemente no serviço de conquista de pessoas para Cristo. Esse tem sido o grande desafio do ministério cristão ao longo dos séculos e continua sendo no mundo contemporâneo: formar novos discípulos que, por sua vez, façam outros discípulos.
Para que a igreja experimente crescimento qualitativo, quantitativo e geográfico, é necessário compreender as razões do baixo envolvimento dos membros. Neste artigo, analisaremos alguns desses fatores e apresentaremos orientações práticas que auxiliarão o pastor no envolvimento e na capacitação da igreja, além de conselhos do Espírito de Profecia relacionados ao trabalho pastoral.
A crise do envolvimento
Estudos realizados na Igreja Adventista “sugerem que, em média, menos de 20% dos membros de nossas congregações participam ativamente de algum programa evangelístico da igreja”.¹ Kurth Johnson reconheceu que, em muitos lugares, os membros veem o pastor como o único responsável pela assistência aos doentes e desanimados, pelas visitas, pelos estudos bíblicos e pela condução das reuniões religiosas.²
Diferentes autores têm procurado explicar o baixo envolvimento dos membros com a missão da igreja. O teólogo Alberto Timm declarou que, com o passar do tempo, muitos movimentos religiosos “acabaram perdendo o fervor espiritual e o ímpeto missionário que lhes deram origem”.³
De maneira semelhante, David Hesselgrave destaca que “é fato notável na história, tanto passada quanto contemporânea, que o grau de compromisso da igreja com a evangelização do mundo é proporcional ao grau de sua convicção sobre a autoridade da Bíblia. Sempre que os cristãos perdem a confiança na Bíblia, também perdem o zelo pelo evangelismo.”⁴
Segundo Russell Burrill, cabe ao pastor manter viva a visão missionária da igreja por meio da pregação bíblica e da capacitação dos voluntários na igreja local, de acordo com os dons espirituais. Em sua compreensão, o tempo do pastor deve ser investido mais no treinamento, na formação e na supervisão dos membros.⁵
Cristãos espectadores
Alguns cristãos imaginam que o testemunho ou o evangelismo pessoal seja apenas um “programa” ou uma exigência da igreja. No entanto, o engajamento no evangelismo pessoal é resultado de uma experiência genuína de conversão e dedicação a Jesus. Trata-se da resposta do crente ao sacrifício de Cristo. Você e eu testemunhamos não por interesse, mas porque amamos a Jesus (2Co 9:14).
Embora esse devesse ser o sentimento de todo cristão, em muitos casos a realidade é diferente. Diversos fatores contribuem para a falta de envolvimento do membro que se limita a ser adventista apenas no sábado pela manhã. Entre eles, podem estar a falta de confiança, de motivação, de comunhão diária com Deus ou até mesmo a insegurança quanto à própria salvação.
Também é bastante provável que muitos membros não participem porque desconhecem o próprio potencial. Talvez nunca tenham sido desafiados, por meio do apelo pastoral, a crescer espiritualmente e a se envolver na salvação de pessoas. É possível também que jamais tenham recebido treinamento ou capacitação adequada para compreender a Bíblia e compartilhá-la com outros. Deve-se considerar, igualmente, que alguns deixam de se envolver simplesmente por acreditarem que essa responsabilidade pertence apenas ao pastor ou a um grupo específico da igreja.
Diante dessa realidade, é imprescindível que o pastor exerça pessoalmente seu ministério junto aos membros da igreja, permitindo que o Espírito Santo o use no cuidado e nas visitas pastorais. Ao agir dessa maneira, ele demonstrará, pelo próprio exemplo, que assim como foi ao encontro deles, também devem utilizar sua influência pessoal para se relacionar intencionalmente com amigos, parentes e vizinhos, conduzindo-os a Cristo.
Despertando a igreja
Como líderes, os pastores devem se preocupar com aqueles que não estão comprometidos com a conquista de pessoas para o reino de Deus. O membro que não testemunha evidencia que algo não vai bem em sua experiência cristã. Não existe discípulo espiritualmente saudável que não esteja comprometido com a missão.
A seguir, apresentamos algumas dicas de como o pastor pode ajudar os membros a se envolverem na missão divina:
- Visitá-los pessoalmente;
- Conscientizá-los sobre o sacerdócio de todos os crentes;
- Organizar um plano de ação;
- Realizar testes de dons espirituais;
- Criar na igreja uma atmosfera de reavivamento e reforma;
- Envolver a igreja no planejamento e no estabelecimento de alvos;
- Delegar pequenas responsabilidades;
- Reunir-se regularmente com a liderança;
- Organizar uma escola permanente de capacitação missionária;
- Promover um ambiente de motivação;
- Providenciar materiais de qualidade;
- Apoiar os iniciantes;
- Demonstrar reconhecimento e gratidão, tanto no aspecto pessoal quanto coletivo, por todas as iniciativas missionárias;
- Estabelecer um projeto de colheita no primeiro ou no segundo semestre;
- Orar constantemente pelos membros;
- Realizar trimestralmente uma atividade social para interação e socialização.
Mobilizando os membros
O pastor deve estar consciente de que muitas pessoas se sentem tímidas e têm medo de testemunhar de sua fé. Outras possuem uma compreensão limitada do que significa pregar o evangelho, associando essa missão apenas à distribuição de literatura, ministração de estudos bíblicos, direção de classes bíblicas, liderança de pequenos grupos ou pregação de sermões para grandes públicos.
Alguns se desculpam dizendo que não possuem dons, habilidades ou conhecimento suficiente das doutrinários bíblicas. Outros alegam falta de tempo. No entanto, nossos membros precisam entender que todo crente deve empenhar-se na missão de conduzir pessoas a Cristo.
Diante dessa realidade, o pastor deve procurar conduzir pessoas a Cristo pessoalmente e ensinar a igreja a fazer o mesmo. A seguir, apresentamos algumas sugestões para promover o envolvimento na missão:
- Orar por amigos, parentes e vizinhos;
- Convidar amigos para os programas especiais da igreja;
- Promover cursos de interesse da comunidade;
- Distribuir literatura;
- Ministrar estudos bíblicos individualmente ou em dupla;
- Conduzir uma classe bíblica;
- Organizar ou dirigir um pequeno grupo;
- Realizar encontros, chás ou almoços com amigos não adventistas;
- Enviar mensagens pelas redes sociais;
- Fazer visitas missionárias a doentes, membros desanimados e afastados;
- Organizar cursos para deixar de fumar;
- Promover encontros de casais para não adventistas;
- Visitar presídios, hospitais, orfanatos e asilos;
- Plantar novas igrejas em municípios, cidades e bairros sem presença adventista;
- Divulgar a TV Novo Tempo, a Rádio Novo Tempo e os sites missionários da igreja;
- Participar de campanhas como Recolta, Mutirão de Natal e Vida por Vidas;
- Testemunhar no ambiente de trabalho.
O pastor que deseja conduzir a igreja ao envolvimento missionário precisa, antes de tudo, buscar a direção divina. A visão para o crescimento da igreja nasce na comunhão com Deus; por isso, é essencial orar pedindo discernimento e motivação correta. Depois de interiorizar essa visão, o pastor deve comunicá-la com clareza à liderança e avaliar a realidade local e os desafios existentes. A partir disso, poderá elaborar um planejamento coerente, com metas alcançáveis.
Também é importante envolver a liderança nas decisões, organizar uma equipe comprometida com a missão e delegar responsabilidades. Além de estabelecer cronogramas, acompanhar os resultados e manter a igreja informada sobre o andamento dos projetos, o pastor deve reconhecer o empenho da equipe e lembrar que a verdadeira motivação da missão deve ser sempre espiritual.
O Espírito de Profecia e o trabalho pastoral
Leia, atentamente, os textos de Ellen White a seguir sobre a função do pastor:
Planejar o trabalho. “Aqueles que estão encarregados dos interesses espirituais da igreja devem formular planos e encontrar um jeito para que todos os seus membros tenham alguma oportunidade de participar da obra de Deus.”⁶ “Na obra de muitos pastores há sermões demais e bem pouco do verdadeiro trabalho de coração para coração. Há necessidade de mais trabalho pessoal.”⁷
Envolver todos na missão. “Os pastores não devem fazer a obra que pertence à igreja, exaurindo-se assim e impedindo que outros cumpram seu dever. Eles devem ensinar os membros a trabalhar na igreja e entre a vizinhança.”⁸
Manter na igreja um plano de capacitação contínua. “Toda igreja deve ser uma escola missionária para obreiros cristãos. Seus membros devem ser instruídos em dar estudos bíblicos e em dirigir classes da Escola Sabatina, na melhor maneira de auxiliar os pobres e cuidar dos doentes, de trabalhar pelos não convertidos. […] Não somente deve haver ensino, mas trabalho real, sob a direção de instrutores experientes.”⁹
Dar atenção especial aos seus colaboradores. “Nossos pastores devem dar atenção especial às instruções e preparo daqueles que cooperarão com eles.”¹⁰
Unir esforços para concluir a obra. “A obra de Deus na Terra nunca poderá ser terminada a não ser que os homens e as mulheres que constituem a igreja participem do trabalho e unam seus esforços aos dos pastores e oficiais da igreja.”¹¹
Descentralizar o ministério. “Algumas vezes, os pastores trabalham em excesso, procuram tomar todo o trabalho em suas mãos. Isso os esgota e prejudica, mas eles continuam a se envolver com tudo. Pensam que só eles devem trabalhar na causa de Deus, enquanto os membros da igreja ficam ociosos. Essa não é, de maneira alguma, a ordem de Deus.”¹²
Ensinar a servir. “O maior auxílio que se pode prestar ao nosso povo é ensiná-lo a trabalhar para Deus e confiar Nele, e não nos pastores.”¹³
Mobilizar a igreja para a ação. “Ao trabalhar em lugares em que já há alguns na fé, o pastor não deve a princípio tentar converter os incrédulos, mas exercitar os membros da igreja para que cooperem com proveito. Deve trabalhar com eles individualmente e tentar despertá-los para que eles próprios busquem experiência mais profunda e trabalhem por outros.”¹⁴
Motivar quem não está engajado. “Aqueles que não estão assumindo suas responsabilidades devem ser visitados. Deve-se orar e trabalhar com eles. Você, pastor, não permita que as pessoas se apoiem em você; antes ensine a elas que devem usar seus próprios talentos para comunicar a verdade aos que estão ao redor.”¹⁵
Manter o rebanho envolvido. “Se os pastores dessem mais atenção a pôr e manter seu rebanho ativamente ocupado na obra, realizariam mais benefícios, teriam mais tempo para estudar, fazer visitas missionárias e evitar muitas causas de atrito.”¹⁶
Aproveitar o primeiro amor. “Quando pessoas se convertem, é preciso colocá-las para trabalhar imediatamente.”¹⁷
Instruir e animar. “Muitos teriam boa vontade de trabalhar se lhes ensinassem a começar. Necessitam ser instruídos e animados.”¹⁸
Promover o trabalho missionário. “A igreja que trabalha é uma igreja viva.”¹⁹
Fortalecer a missão por meio da educação. “Se não se ensina o povo como trabalhar, como dirigir reuniões, como desempenhar sua parte no trabalho missionário, como alcançar com êxito o povo, a obra será praticamente um fracasso.”²⁰
Conclusão
A prioridade do trabalho pastoral é preparar os membros da igreja para o serviço cristão, de acordo com os dons concedidos por Deus (Ef 4:11-16). Esse tem sido o grande desafio do ministério ao longo dos séculos.
O plano de Deus nunca consistiu, nem jamais consistirá, no “domínio” do pastor sobre os irmãos, como se ele fosse superior aos demais. Pelo contrário, o pastor é um servo chamado por Deus para cumprir uma missão específica: promover e coordenar o ministério pessoal de cada membro. Em outras palavras, ele deve ser um instrumento nas mãos do Onipotente para ajudar a igreja a cumprir sua missão.
Concluo com esta reflexão de Carl George: “Mostre-me uma igreja grande, centralizada no pastor, e encontraremos um clero muito cansado. Mostre-me uma igreja grande, com leigos capacitados, e organizada de maneira simples, onde o clero não esteja completamente exausto por estar trabalhando demais, e eu lhes mostrarei uma igreja que não vai parar de crescer porque será capaz de cuidar bem das pessoas que Deus chamar para a vida nova por meio dela.”²¹
Paulo Godinho, pastor em São Paulo
Referências:
1 Alberto R. Timm, “Podemos ainda ser considerados uma igreja missionária?”, Revista Adventista, fevereiro de 2002, p. 9.
2 Kurth Johnson, Pequenos Grupos Para o Tempo do Fim (São Paulo: Editora Sobre Tudo, 2000), p. 18.
3 Timm, “Podemos ainda ser considerados uma igreja missionária?”, p. 8.
4 David J. Hesselgrave, Missões Transculturais (São Paulo: Vida Nova, 1987), p. 35.
5 Russell Burrill, Como Reavivar a Igreja do Século 21 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2005), p. 98.
6 Ellen G. White, Obreiros Evangélicos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2024), p. 270.
7 White, Obreiros Evangélicos, p. 142.
8 Ellen G. White, Serviço Cristão (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2022), p. 58, 59.
9 White, Serviço Cristão, p. 50.
10 White, Obreiros Evangélicos, p. 57.
11 White, Serviço Cristão, p. 57.
12 Ellen G. White, Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2022), p. 80.
13 White, Serviço Cristão, p. 49.
14 White, Obreiros Evangélicos, p. 152.
15 White, Obreiros Evangélicos, p. 155.
16 White, Obreiros Evangélicos, p. 153.
17 White, Evangelismo, p. 247.
18 White, Serviço Cristão, p. 50.
19 White, Serviço Cristão, p. 62.
20 Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2020), v. 5, p. 216.
21 Carl George, “Para Pensar”, Ministério, julho-agosto de 2009, p. 33.
