O ministério adventista nasceu para cumprir a missão. Os primeiros pregadores sabatistas eram homens de sustento próprio que cruzavam vilas e cidades para reunir o rebanho espalhado e, no meio do caminho, ainda precisavam trabalhar em diversas atividades para ganhar o próprio pão. Tiago White viveu isso na prática. Para sustentar a si mesmo e a obra, ceifou feno, carregou pedras para a ferrovia e cortou lenha, sem nunca deixar de pregar.

A abnegação dos pioneiros, porém, tinha um custo. Homens como John Loughborough e John Andrews trabalhavam até a exaustão para garantir seu sustento enquanto viajavam para pregar, e outros, desanimados, chegaram a abandonar o posto.¹ Em meio aos desafios, sobrava pouco tempo para a missão, e a obra avançava lentamente.

A situação começou a mudar em 1859, quando a igreja de Battle Creek adotou um plano de contribuição regular conhecido como Benevolência Sistemática.² Com os membros unidos na manutenção do ministério, foi possível enviar os primeiros pastores de dedicação exclusiva, que tinham um alvo bem claro: alcançar quem ainda não conhecia a verdade e levantar igrejas onde não havia nenhuma.

Desde o início, portanto, o avanço missionário e o cuidado das pessoas caminharam juntos. Essa vocação se desdobra em três tarefas: o pastor adventista é chamado a conquistar pessoas, capacitá-las e cuidar delas. São os três “Cs” do chamado, e todos servem ao mesmo propósito: o avanço da missão.

O pastor como conquistador

A dimensão mais antiga do ministério é a do conquistador de almas. Foi para isso que a Benevolência Sistemática proporcionou ao obreiro condições de se dedicar exclusivamente a essa tarefa, estando livre do trabalho secular: para que ele pudesse ir onde ninguém ainda havia chegado e conquistar quem não havia sido conquistado. Os primeiros pastores de tempo integral não foram chamados para cuidar do que já existia, mas para abrir caminho onde ainda não havia igreja alguma.

Esse era, aliás, o propósito concreto de seu envio: plantar igrejas em lugares não alcançados. O obreiro não saía para se acomodar em um rebanho pronto, mas para formar um rebanho novo. E cada igreja organizada se tornava, por sua vez, uma base para alcançar a região ao seu redor.

Ellen White voltou a esse tema muitas vezes, sempre com franqueza. O perigo que ela identificava não era o pastor trabalhar pouco, mas concentrar seus esforços no lugar errado: “Nossos pastores devem saber planejar sabiamente, como mordomos fiéis. Devem sentir que não é seu dever circular pelas igrejas já formadas, mas que devem fazer trabalho evangélico ativo, pregando a Palavra e fazendo trabalho de casa em casa nos lugares em que a verdade ainda não foi ouvida.”³

A preocupação dela era prática. Quando o obreiro se acomoda em congregações que já conhecem a verdade, dois prejuízos surgem ao mesmo tempo: os campos novos ficam sem testemunho, e a própria igreja atendida perde o vigor. Ellen White chegou a advertir que tanto o pastor quanto a congregação acabam definhando quando o ministério se reduz a pregar para quem já está convertido.⁴ É o trabalho de conquistar pessoas que mantém o ministério ativo e voltado para aqueles que ainda não conhecem a Cristo.

O pastor como capacitador

Com o tempo, as igrejas cresceram e, com elas, surgiu uma demanda legítima por membros mais preparados. As congregações passaram a pedir pastores que as ajudassem a amadurecer na fé. Foi então que surgiu uma tensão que acompanha o ministério adventista até hoje: um pastor fixo em uma igreja poderia esfriar no evangelismo, enquanto a igreja correria o risco de se acostumar a depender dele para tudo.

A resposta de Ellen White não foi afastar o pastor da igreja local, mas redefinir sua atuação nela. Ao lado da congregação, sua principal vocação é formar discípulos mais do que apenas pregar: “Logo que seja organizada uma igreja, o pastor deve colocar seus membros para trabalhar. Eles terão que ser ensinados a labutar com êxito. Dedique o pastor mais tempo para educar do que para pregar.”⁵

O alvo continua sendo evangelístico. Cada novo discípulo é, no fundo, um missionário em formação, e cabe ao pastor prepará-lo para alcançar outras pessoas. Por isso, a pioneira afirmou que o melhor que se pode fazer por uma igreja não é servi-la para sempre, mas ensiná-la a servir: “O maior auxílio que se pode prestar ao nosso povo é ensiná-lo a trabalhar para Deus e confiar Nele, e não nos pastores. Aprendam a trabalhar como Cristo trabalhou.”⁶

Vista assim, a obra de capacitar não disputa espaço com a de conquistar; na verdade, ela é uma maneira de ampliar o evangelismo, porque coloca a igreja inteira em movimento. Ellen White descrevia a congregação local quase como uma escola de obreiros, na qual os membros aprendem, na prática, os métodos do trabalho missionário. O pastor que assume esse papel, em vez de fazer tudo sozinho, entende que a melhor estratégia é preparar outros para a missão. Embora isso exija bastante trabalho no início, o resultado final será muito mais satisfatório.

O pastor como cuidador

O terceiro chamado do pastor – e, talvez, o que mais corre o risco de ser menosprezado em nome dos outros dois – é para cuidar. Há pessoas que precisam ser visitadas, ouvidas e acompanhadas de perto, uma casa de cada vez. Esse cuidado não é uma pausa no evangelismo. Ao contrário, é uma das formas mais eficazes de evangelizar.

Ellen White não separa as duas coisas. Para ela, o contato pessoal, no ambiente do lar, muitas vezes alcança o coração de um modo que não é possível no púlpito: “A apresentação de Cristo em família, no lar e em pequenas reuniões em casas particulares é muitas vezes mais bem-sucedida em atrair pessoas para Jesus do que sermões feitos ao ar livre, às multidões em movimento, ou mesmo em salões e igrejas.”⁷

Ela também faz questão de lembrar ao pregador que o sermão não encerra o trabalho, mas apenas o inicia: “Quando um ministro do evangelho prega um sermão, sua obra está apenas começando. Há um trabalho pessoal para ele fazer. Deverá visitar o povo em seus lares, falando e orando com eles com fervor e humildade.”⁸

Não é por acaso que aquele primeiro plano de sustento, em 1859, já previa o amparo aos mais vulneráveis da comunidade. Cuidar de pessoas sempre fez parte da missão adventista, e não deve ser considerado um mero apêndice dela. A visitação não rouba tempo da missão; ela leva a missão até a porta de cada pessoa, onde, no fim das contas, a maioria das grandes decisões é tomada.

Os três a serviço da missão

Na rotina de um pastor fiel, esses três chamados não vivem em compartimentos separados. Eles se sustentam mutuamente, e isso se traduz em decisões concretas. O pastor pode organizar um itinerário de visitação que atenda às reais necessidades de cuidado da igreja sem ocupar o espaço da evangelização. Pode manter um calendário de capacitação para as congregações de sua região, preparando os membros para a missão, em vez de apenas pregar para eles semana após semana. E pode fazer tudo isso sem perder de vista a razão de ser do ministério: conquistar pessoas para Cristo.

Otávio Barreto, secretário ministerial associado e diretor de Capelania da DS

Referências:

1 Ellen G. White, Atos dos Apóstolos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021), p. 232.

2 Kevin M. Burton, “Dupla Função”, Revista Adventista, maio de 2020, p. 24, 25.

3 Richard W. Schwarz, Light Bearers to the Remnant (Mountain View: Pacific Press, 1979), p. 178.

4 Ellen G. White, Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2023), p. 266.

5 Ellen G. White, Review and Herald, 9 de fevereiro de 1905.

6 Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021), v. 7, p. 20.

7 White, Testemunhos Para a Igreja, v. 7, p. 19.

8 Ellen G. White, Obreiros Evangélicos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2024), p. 149.