Chegamos ao fim do ano e, com ele, chega também o cansaço. Depois de meses de intensa atividade, é natural sentir o peso do trabalho. Quero deixar para você, nesta etapa da caminhada, uma mensagem que também faz bem a mim.
Sei que, em meio a tantas atividades já realizadas e às que ainda estão por vir, pode ser difícil encontrar tempo para descansar. Por isso, convido você a meditar em uma passagem preciosa.
Marcos relatou algo que, à primeira vista, parece estranho: em meio a uma tempestade, Jesus dormiu. E não em qualquer lugar. Ele dormiu na parte de trás do barco, enquanto as ondas entravam e o vento sacudia a embarcação (Mc 4:35-38). Essa imagem não é a de alguém que descansava apesar das circunstâncias, mas de alguém que descansava em meio a elas.
Esse sono tem uma explicação simples: Jesus estava cansado. Tinha sido um dia de entrega total: ensinamentos, contato com a multidão, curas e demandas constantes daqueles que precisavam Dele. Depois de uma jornada intensa de serviço, Seu corpo pedia repouso.
Mas há uma segunda razão: Cristo dormiu em um barco em meio à tempestade porque descansava nas mãos Daquele que sustentava a embarcação. Os discípulos viam apenas o vento e as ondas. Jesus, porém, enxergava além das aparências: sabia que Sua vida, assim como a deles, estava nas mãos do Pai. Como nos lembrou o salmista: “Ele não permitirá que os seus pés vacilem; não dormitará Aquele que guarda você” (Sl 121:3, 4).
Há algo que nós, que servimos no ministério, precisamos lembrar. O trabalho pastoral – as visitas, as pregações, as comissões e o acompanhamento constante das ovelhas – produz um cansaço legítimo, aquele que chega depois de uma jornada de trabalho. Esse cansaço não é uma falha; é sinal de entrega genuína e merece um descanso igualmente genuíno.
Ellen White expressou isso com uma ternura que também nos alcança hoje: “As compassivas palavras de Cristo se dirigem aos Seus obreiros hoje em dia da mesma maneira que aos discípulos. Ele diz aos que estão cansados e exaustos: ‘Venham repousar um pouco, à parte, num lugar deserto’” (Obreiros Evangélicos [CPB, 2024], p. 190).
No entanto, há um descanso que não depende de a tempestade cessar nem de tudo acontecer como esperamos: o descanso de saber que não somos nós que sustentamos o barco do ministério. Podemos descansar mesmo em meio à tempestade, porque é Ele quem o sustenta.
Esse cuidado não ficou no passado. O mesmo Cristo intercede hoje por nós no Santuário celestial (Hb 7:25), sustentando Sua igreja.
À medida que este ano se aproxima do fim, lembremos que não somos chamados a resolver tudo antes de descansar. Somos chamados a confiar Naquele que está conosco no barco e a nos permitir, como Ele, esse sono tranquilo que nasce da certeza de termos cumprido nossa tarefa e de estarmos em boas mãos.
Que esta parte final do ano nos encontre cansados pelo serviço, mas também descansados na fé. Essa combinação, mais do que qualquer outra, é o que sustenta um ministério ao longo dos anos.
Carlos Gill, secretário ministerial para a Igreja Adventista na América do Sul
