“Não sinto que tenha mais forças para continuar”, disse-me um colega, à beira das lágrimas. Sua voz, do outro lado do telefone, revelava angústia. Depois de conversarmos por alguns minutos e orarmos juntos, ele me confessou que se sentia sobrecarregado pelo excesso de tarefas e pela dimensão do que, em sua opinião, ainda faltava para que o evangelho fosse pregado em todo o mundo.

Talvez você também tenha sentido nestes dias o incômodo de uma agenda cheia. Talvez tenha ficado desanimado ou sido incompreendido. Talvez não esteja encontrando o rumo para seu ministério e se sinta sozinho. Talvez tenha chorado e, por não encontrar consolo, buscado refúgio nas redes sociais ou em outros mecanismos de fuga ainda mais perigosos. Algo semelhante aconteceu com Daniel.

Angustiado com os cronogramas proféticos e consciente de que os 2.300 dias apontavam para um futuro distante, ele mergulhou em uma profunda aflição. Aquele que havia permanecido firme diante do poderoso Nabucodonosor e suportado com coragem leões ferozes e famintos não conseguiu resistir às pontiagudas flechas do desânimo lançadas por seus próprios pensamentos.

Depois de três semanas de jejum e angústia, derramou sua alma em oração, e um anjo de Deus veio para consolá-lo: “Daniel, homem muito amado, esteja atento às palavras que vou lhe dizer. Fique em pé, porque fui enviado para falar com você” (Dn 10:11). Mais adiante, disse-lhe: “Não tenha medo, homem muito amado! Que a paz esteja com você! Anime-se! Sim, anime-se!” (v. 19).

A partir daí, o livro de Daniel apresenta em detalhes a dura realidade do grande conflito entre as forças do bem e do mal. Ao final, é prometido ao profeta que ele participará da ressurreição dos justos (Dn 12:13).

Séculos mais tarde, na distante ilha de Patmos, outro profeta, já idoso e marcado pelas injustiças deste mundo, recebeu uma visão celestial. Um anjo com um livrinho lhe deu uma ordem estranha: comer o pequeno volume. Sabemos de memória o que aconteceu. A doçura que João sentiu na boca transformou-se em amargura no ventre. Foi nesse contexto que o anjo lhe ordenou: “É necessário que você ainda profetize a respeito de muitos povos, nações, línguas e reis” (Ap 10:11).

Não estamos diante de uma sugestão pastoral nem de um conselho opcional. Trata-se de um mandamento divino dirigido primeiramente a João e, por extensão, à igreja de todos os tempos.

O DNA da missão transcultural emana desse versículo. A mensagem distintiva que temos como Igreja Adventista deve chegar a todos os povos, sem distinção cultural, religiosa ou étnica. Em um mundo que se orgulha de ser globalizado, mas que continua fragmentado por idiomas, costumes, ideologias e poderes, esse versículo desafia nossa fé e nossas estratégias. Não é sábio nos refugiarmos no conforto de nossa própria cultura. Deus nos convida a anunciar o evangelho àqueles que vivem em outros contextos.

Sem dúvida, haverá rejeição, sofrimento e incompreensão. Deus não disse que seria fácil. Mas prometeu nos dar força e sabedoria para cumprir esta missão, que é Dele.

Por isso, erga novamente a voz, retome o plano (ou pense em um novo) e comprometa-se com a tarefa de comunicar a mensagem de salvação. Tenha ânimo. Você é muito amado. Seu chamado continua vigente. Sua missão também.

Pablo Ale, editor da Ministério, edição da Aces