Quando eu era criança, o budismo era algo muito distante. Para mim, representava apenas um nome que aparecia nos livros de Geografia, acompanhado de imagens de templos dourados e estátuas enormes. Quando falavam na igreja sobre missões transculturais ou sobre a Janela 10/40, o público que me vinha à mente era sempre o muçulmano. O budismo era apenas uma sombra, algo de que eu me lembrava ao ver uma estátua de Buda na entrada de algum restaurante chinês. Nada muito concreto.

Até que cheguei à Tailândia como missionário. Foi então que comecei a perceber a profundidade dessa crença. O budismo ganhou rosto. Conheci pessoas que vivem essa religião de verdade. Vi como ela afeta seu dia a dia, as decisões que tomam e a forma como se relacionam com a família e com a comunidade. Com essa descoberta veio também a percepção do quanto é difícil pregar sobre Jesus para esse povo.

Comecei a pesquisar, conversar com pessoas e ler sobre a história do budismo e sua influência na cultura tailandesa. Quanto mais aprendia, mais entendia que o desafio não era apenas teológico, mas também cultural, social e existencial. Não é que eles não queiram ouvir sobre Jesus. Muitos simplesmente não conseguem, porque a cosmovisão budista está profundamente enraizada em seu coração e em sua mente. Isso me fez repensar completamente a forma como fazemos missão.

Os números deixam claro a dimensão do desafio. A Tailândia abriga uma das maiores populações budistas do mundo. São quase 68 milhões de pessoas, o que representa cerca de 93% da população. Só que esses números não contam toda a história. O budismo aqui não é apenas uma religião praticada nos fins de semana. É a base de tudo — da cultura, da identidade nacional, da política, da vida familiar e da forma como as pessoas entendem o mundo e seu lugar nele. É exatamente aí que começa o primeiro grande desafio missionário.

Quando a religião é a vida inteira

No Ocidente, costumamos compartimentalizar a vida. Temos um espaço para o trabalho, outro para a família, outro para o lazer e outro — separado dos demais — para a religião. Esses compartimentos são bem definidos. Você pode ser um profissional competente de segunda a sexta, pai de família no fim de semana e cristão devoto no sábado. São esferas da vida que raramente se misturam.

Por isso, quando alguém muda de religião no Brasil, isso muitas vezes não afeta o emprego, a família nem a identidade cultural. É uma troca de um compartimento da vida, não da vida como um todo. A pessoa continua sendo brasileira, continua no mesmo trabalho, continua com os mesmos amigos.

Mas, para quem vive o budismo, especialmente aqui na Tailândia, essa lógica simplesmente não existe. A religião não ocupa um compartimento. Ela permeia tudo. O rei é uma figura ao mesmo tempo política e religiosa. A identidade nacional está profundamente entrelaçada com a prática budista. A identidade nacional também. O calendário segue o calendário budista. As festas são budistas. Os valores ensinados às crianças vêm do budismo.

Percebi isso quando perguntei a uma amiga tailandesa por que ela era budista. Ela me respondeu: “Sou tailandesa, e todo tailandês é budista”. Embora nem todo tailandês seja budista, sua resposta revelou o quanto, para muitos deles, ser budista e ser tailandês são praticamente a mesma coisa. Em outras palavras, religião e nacionalidade são dimensões inseparáveis.

Por isso, deixar de ser budista na Tailândia não significa simplesmente mudar de crença. Significa abrir mão da família, da vida cotidiana e até da própria identidade. É um custo existencial que nós, missionários vindos do Ocidente, demoramos a compreender em sua real dimensão.

Quando chegamos aqui com a visão ocidental de que a religião é uma escolha pessoal, não entendemos por que as pessoas não simplesmente se convertem. Pensamos que é falta de estudo ou de convicção teológica. Mas a realidade é muito mais complexa.

Isso nos desafia a repensar completamente o que significa ser um missionário cristão, especialmente no continente asiático. Não podemos pregar um evangelho que seja apenas uma proposta religiosa, separada da vida real. A pessoa que está ao nosso lado observará nossa família, nossa forma de trabalhar, como tratamos os outros e o que fazemos quando ninguém está olhando. Para ela, cristianismo que pregamos é aquilo que somos, não apenas o que dizemos no culto de sábado.

Essa questão nos convida a um nível de integridade e coerência entre fé e vida que deveria ser o padrão, e não a exceção. Quando vivemos em um ambiente no qual a religião permeia todas as facetas da vida, não podemos separar o que ela diz do que fazemos. Nossa vida é um sermão. Nossa coerência é nosso argumento. Nossa gentileza é nosso testemunho.

A força da comunidade

Existe outra dimensão cultural que amplia esse desafio de forma significativa. A Tailândia é um país onde a vida em comunidade não é um benefício opcional; é o que dá sentido à existência. A vida aqui é fundamentalmente orientada pela comunidade, que funciona como uma família estendida. Para o tailandês, pertencer a uma comunidade não é algo que se escolhe porque parece interessante. É o que o define como pessoa. É o que lhe confere identidade, segurança e propósito.

Quando alguém se converte ao cristianismo, frequentemente é excluído dessas redes comunitárias. Deixa de fazer parte do grupo, o que é muito difícil, especialmente em uma cultura em que a vida fora da comunidade simplesmente não faz sentido. Esse é um custo que poucos estão dispostos a pagar, não por falta de convicção teológica, mas pelo medo da solidão, de perder a própria identidade e de não ter mais um lugar ao qual pertencer.

Eu vi isso acontecer. Vi pessoas que começavam a se interessar pelo cristianismo, frequentavam os cultos e aprendiam sobre Jesus. No entanto, quando chegava a hora de tomar uma decisão mais séria, recuavam. Não porque não acreditassem, mas porque sabiam que, ao tomar essa decisão, poderiam perder a família, os amigos, o trabalho — praticamente tudo.

A resposta missionária que temos aprendido na prática é simples, mas exige paciência. A pessoa precisa ganhar uma nova comunidade antes de perder a antiga. Isso significa que, nesse contexto, o caminho para o batismo precisa ser longo, relacional. O candidato ao batismo não passa a fazer parte da comunidade cristã depois de ser batizado; ele precisa pertencer a ela muito antes. Precisa participar da missão, das refeições e da vida cotidiana da igreja. Precisa sentir que tem um lugar, que é bem-vindo e que faz parte de algo maior.

Quando finalmente chega o batismo, ele não está abandonando tudo; encontrou um novo lugar ao qual pertence. Já tem uma nova família que o aceita e o ama. Isso muda tudo. O batismo deixa de ser um salto no escuro e passa a ser um passo natural em uma jornada que começou muito antes.

Hoje temos pessoas que já se identificam como missionárias, participam ativamente da missão, frequentam os cultos, estudam a Bíblia e ainda não foram batizadas. Isso pode ser estranho sob uma perspectiva ocidental, mas, aqui, faz todo sentido. O pertencimento vem antes da declaração formal. O batismo, quando acontece, é uma consequência, o reconhecimento público de algo que já é realidade.

Eles já vivem grande parte do que pregamos

Aqui está, talvez, o maior desafio que enfrentamos na pregação do evangelho nesse país. Temos uma ideia ocidental de que o missionário cristão leva luz a um povo que vive nas trevas. Mas aqui, embora enfrentem muitos desafios, eles não se veem como pessoas que precisam dessa luz.

A Tailândia é um dos países mais seguros do mundo. As pessoas são genuinamente gentis, generosas e honestas. Os animais de rua são tratados com cuidado. A solidariedade entre vizinhos é real e frequente. O budismo, de fato, contribui para a formação de cidadãos notavelmente bons. Quando você anda pelas ruas da maioria das cidades tailandesas, percebe a paz, a ordem e o respeito.

Certo dia, minha filha me disse: “Pai, acho que aqui eles seguem só a segunda tábua dos Dez Mandamentos”. Ela estava certa. No Brasil, às vezes somos muito fortes na primeira tábua — a devoção a Deus, os cultos, as doutrinas —, mas deixamos a desejar na segunda: o amor prático ao próximo. Aqui, a situação se inverte. Há um nível impressionante de ética prática, de bondade cotidiana e de cuidado com o outro.

Mas há uma diferença fundamental na motivação. No budismo theravada tailandês, o bem que se pratica não nasce do amor, mas do medo do karma. Cuida-se dos animais com receio de que sejam parentes reencarnados. Age-se com generosidade para acumular mérito e compensar as más ações do passado. É uma vida de obras intensa e tensa, na qual a salvação depende do equilíbrio contábil das suas ações. Vive-se constantemente calculando, preocupado se o bem praticado é suficiente. Não há graça. Não há perdão.

É justamente nesse ponto que o evangelho encontra sua oportunidade mais poderosa: a mensagem da graça. A notícia de que Deus não nos aceita porque merecemos, mas porque Ele nos ama. Isso é algo radicalmente novo e profundamente libertador para eles.

Não somos salvos por obras que compensam outras obras. Somos salvos por Cristo. É Deus quem efetua em nós “tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade” (Fp 2:13). Não caminhamos sozinhos na jornada de santificação. Cristo caminha conosco — e isso muda tudo.

Quando uma pessoa budista compreende essa verdade, quando descobre que pode ser perdoada, que não precisa mais carregar o peso de tudo, que Deus a ama não por causa do que faz, mas por causa de quem ela é, algo profundo acontece. É como se uma porta se abrisse diante dela, uma porta cuja existência ela nem imaginava.

A má reputação do cristianismo

Há mais um obstáculo, e ele é doloroso de reconhecer. Para muitos tailandeses, o cristianismo chegou com uma péssima reputação — e não por culpa deles, mas nossa. Por culpa do Ocidente.

Como, para eles, religião e cultura são inseparáveis, ao olharem para o Ocidente concluem naturalmente que aquilo que veem é o fruto do cristianismo. Veem a desestruturação da família, a violência normalizada, a hiperssexualização da cultura e a ganância como valor social, e associam tudo isso à religião predominante no mundo ocidental.

Certa vez, uma amiga missionária caminhava por Bangkok com o celular na mão e comentou que estava preocupada com a segurança. Um tailandês tentando tranquilizá-la, disse: “Fica tranquila, aqui não é um país cristão.” O que poderia soar ofensivo era, na verdade, uma percepção sincera. Para ele, onde o cristianismo chega, chega também a desordem moral. Não se trata de uma análise correta, mas de uma percepção real e amplamente difundida. E precisamos lidar com ela.

Esse preconceito não é vencido com argumentos, mas com a vida. A única resposta eficaz a um testemunho distorcido é um testemunho verdadeiro: é demonstrar gentileza, honestidade e um amor que não exige reciprocidade. É o método de Cristo, descrito com precisão por Ellen White: “O Salvador Se misturava com as pessoas como alguém que lhes desejava o bem. Manifestava simpatia por elas, ministrava-lhes às necessidades e conquistava a confiança delas.”¹ Esse método não é uma sugestão; é o único caminho.

Quando você vive em um contexto como esse, entende que sua vida é seu argumento. Sua coerência é sua pregação. Você não pode falar de amor e ser egoísta. Você não pode falar de honestidade e enganar. Não pode falar de paz e viver ansioso. As pessoas estão observando.

Vocês são a religião nova

Por fim, há um desafio que poucos antecipam: o peso da antiguidade. Siddhartha Gautama, o Buda histórico, viveu aproximadamente entre 563 e 483 a.C. Foi contemporâneo do profeta Daniel e viveu cerca de cinco séculos antes de Cristo.

Na cultura asiática, em que a idade é sinônimo de sabedoria e os mais jovens demonstram deferência aos mais velhos, a antiguidade de uma religião é, por si só, um argumento poderoso. O budismo possui cerca de 25 séculos de história documentada. Já o cristianismo, na leitura deles, é uma religião recente. E a religião nova, a religião do Ocidente, a religião que, aos seus olhos, ainda não provou sua validade ao longo do tempo.

Esse é um obstáculo real. Afinal, se você pertence a uma tradição com 25 séculos de história, que atravessou dinastias, sobreviveu a impérios e está profundamente enraizada em sua cultura, por que a trocaria por uma religião com “apenas” 2 mil anos? Por que abraçaria algo novo, estrangeiro e ocidental?

A resposta teológica naturalmente existe. Sabemos que o plano da salvação é anterior à criação e que Jesus é a revelação plena da promessa que percorre toda a história da humanidade. No entanto, essa resposta precisa ser apresentada com humildade, não com pressa; não como um argumento para vencer uma discussão, mas como um mistério a ser descoberto juntos.

O que a missão me ensinou

Cheguei à Ásia querendo ensinar, mas logo descobri que precisava, antes de tudo, aprender. Aprender a humildade de reconhecer que outras culturas e tradições também carregam coisas boas e verdadeiras. Aprender que missão não é colonização religiosa. Não é chegar com a arrogância de quem pensa que o outro está completamente errado e você, completamente certo. É chegar com a confiança de quem tem algo precioso a oferecer, mas com a sabedoria de ouvir antes de falar.

Ao mesmo tempo, essa humildade não pode nos paralisar. Temos uma verdade presente, urgente e transformadora para proclamar. Nosso trabalho aqui nos mostrou que o coração do budismo — a busca pela libertação do sofrimento, o desejo de viver bem e a ânsia por algo transcendente — revela, no fundo, uma sede que só a graça de Cristo pode saciar. Eles procuram libertação, paz e propósito. E nós temos a resposta.

Hoje, mais do que nunca, acredito que não fomos chamados apenas para pregar o cristianismo; fomos chamados para vivê-lo na prática. Fomos chamados a nos misturar com as pessoas, conhecer suas necessidades e servir antes de proclamar. Quando conquistamos sua confiança, podemos lhes apresentar o que nenhuma filosofia humana é capaz de oferecer: um Salvador que nos ama não pelo que fazemos, mas pelo que Ele fez por nós.

Victor Bejota, pastor e líder missionário na Tailândia

Referência

¹ Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021), p. 78.