O evangelho é o poder de Deus para salvação de toda pessoa que crê: primeiro do judeu, depois do gentio (Rm 1:16; cf. At 13:46). Jesus veio a este mundo para resgatar as ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 15:24; cf. 10:5, 6). A missão começa em Jerusalém e se estende aos confins da Terra (At 1:8). Percebe? Na lógica divina, a missão para com o povo judeu é prioritária, e essa primazia não se deve a questões circunstanciais nem geográficas, mas à fidelidade e à aliança de Deus com Seu povo (cf. At 3:25, 26; Rm 3:1-4; Rm 11:1-5). Mesmo que uma parte endurecida de Israel se oponha ao evangelho, os judeus continuam, no que se refere à eleição, “amados por causa dos patriarcas, pois os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis” (Rm 11:28, 29, NVI).
No projeto missionário de Deus, os esforços começam com os de Sua própria casa, com os filhos de Israel. Afinal, eles são os herdeiros espirituais dos oráculos de Deus; a aliança foi feita com Abraão, Isaque e Jacó, seus ancestrais; eles receberam esses dons e o chamado para ser um canal de bênção a todas as famílias da Terra. Sendo depositários do concerto, sua vocação de ser um arauto da lei e do Messias ainda está vigente, embora sua consciência necessite ser despertada pelo testemunho daqueles que permanecem fiéis a Deus. Como Ellen White observou, “entre os judeus há alguns que, como Saulo de Tarso, são versados nas Escrituras, e estes proclamarão com maravilhoso poder a imutabilidade da lei de Deus. O Deus de Israel fará com que isso ocorra em nossos dias. […] Quando Seus servos trabalharem com fé pelos que há muito têm sido negligenciados e desprezados, Sua salvação será revelada”.¹ “Haverá muitos conversos entre os judeus, e esses conversos ajudarão a preparar o caminho do Senhor e fazer no deserto caminho direto para nosso Deus. Judeus conversos hão de ter parte importante a desempenhar nos grandes preparativos a serem feitos no futuro para receber a Cristo, nosso Príncipe. Nascerá uma nação em um dia. Como? Por homens que Deus designou se converterem à verdade.”²
Se essa é a estratégia divina para a Missão Global, deveríamos dar atenção especial a essa prioridade, sem nos esquecermos, obviamente, de cumprir o dever de proclamar o evangelho a cada tribo, língua e nação. A importância que Deus atribui a essa missão é tão grande que nos deu a seguinte orientação profética: “Chegou o momento em que os judeus devem receber luz. O Senhor deseja que sustentemos e animemos homens que trabalharão da maneira certa em prol deste povo, pois haverá uma multidão convicta da verdade que tomará posição a favor de Deus. Está chegando o tempo em que haverá tantas conversões em um dia quanto houve no Pentecostes, após os discípulos terem recebido o Espírito Santo. Os judeus hão de ser uma força no trabalho em prol dos judeus, e haveremos de ver a salvação de Deus.”³
Reconhecer a prioridade da missão aos judeus, porém, não basta. É preciso colocar a estratégia divina em prática. Mas como apresentar as boas-novas do Messias aos filhos de Israel? É sobre essa questão prática que precisamos tratar agora.
Preparando o solo
No contexto adventista, a preocupação com essa missão ganhou uma expressão institucional importante na década de 1990. Em 17 de maio de 1994, reunida em Washington, nos Estados Unidos, a comissão de Missão Global da Associação Geral fez a seguinte recomendação: “É necessário refletirmos sobre a realidade atual do povo judeu de uma forma global. Nossa amizade com cada indivíduo e comunidade de origem judaica deveria ser aprofundada. Necessitamos encontrar métodos apropriados de nos comunicar com eles. […] Muitas pessoas têm um entendimento demasiadamente limitado sobre o real significado desse povo dentro da experiência histórica da humanidade. Alguns o desprezam de todo. Outros chegam mesmo a odiá-lo. Não podemos proceder de tal modo. Ao contrário, […] deveríamos encontrar meios que criassem uma ligação mútua segundo os mais sublimes ideais bíblicos e proféticos para indivíduos, nações e a humanidade como um todo.”⁴
Desde então, a iniciativa institucional mais importante ocorreu por meio da criação de congregações judaico-adventistas. A ideia de formar centros de influência com um culto adaptado, que respeite a sensibilidade judaica, provém de um importante princípio da missiologia: a contextualização. Em 1°Coríntios 9:20 e 21, Paulo declarou: “Tornei-me judeu para os judeus, a fim de ganhar os judeus. […] Para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei (embora não esteja livre da lei de Deus, e sim sob a lei de Cristo), a fim de ganhar os que não têm a Lei” (NVI). O apóstolo contextualizava a pregação do evangelho de acordo com as necessidades de cada lugar ou grupo religioso. Apesar disso, em nenhum momento o apóstolo rebaixou os princípios do evangelho para se adequar ao ambiente. Ao contrário, apresentava o evangelho eterno com integridade, mas sem despertar o preconceito de seus ouvintes.
É dentro desse princípio que a Igreja Adventista do Sétimo Dia decidiu adotar um método de contextualização para compartilhar sua experiência sobre Deus e o Messias com seus amigos judeus. Com esse objetivo, adotou-se um local de culto semelhante a uma sinagoga, com músicas tradicionais e uma liturgia parecida, proporcionando um ambiente mais agradável para o diálogo interreligioso.
Quando trabalhei em Buenos Aires, na Argentina, tive a oportunidade de colocar esse princípio à prova em uma dessas congregações. Convidei um amigo judeu que estava frequentando nossa comunidade a visitar outros dois ambientes e avaliar sua experiência. O primeiro foi um evangelismo público realizado em um ginásio. Durante a oração de joelhos, meu amigo ficou constrangido, pois era o único que havia permanecido em pé. É preciso esclarecer que os judeus não costumam se ajoelhar nos serviços litúrgicos regulares. Embora a prática não seja proibida, há o cuidado de evitar qualquer associação com ’avodah zarah, isto é, idolatria. Além disso, ele também se incomodou com o recolhimento de ofertas no sábado, uma vez que, para um judeu religioso, o dinheiro é considerado muqtseh, ou seja, é “posto de lado” e não pode ser manuseado no sábado.
O segundo local foi uma igreja, em um culto de quarta-feira à noite. Como eu era o pregador, escolhi uma mensagem que pudesse ser mais convidativa para ele e procurei preparar o ambiente para recebê-lo. O resultado, contudo, foi uma experiência neutra: não houve rejeição, mas também não houve maior envolvimento.
A experiência mostrou que ele se sentia muito mais à vontade na congregação judaico-adventista. Ele apreciava o culto, a mensagem, as pessoas e continuou frequentando nossa comunidade por vários meses.
Plantando a semente
Há muitas formas de estabelecer pontos de contato com judeus e a coletividade judaica de um local. Em grandes centros urbanos, em que há uma representação significativa de famílias judaicas, algumas iniciativas podem ser adotadas, como a participação em programas acadêmicos de interesse judaico, frequência a restaurantes e lanchonetes kasher, bem como a prática de voluntariado em instituições judaicas de caridade, asilos ou museus.
É preciso haver intencionalidade, mas, acima de tudo, amor ao próximo e um desejo sincero de estabelecer vínculos. O cuidado com as palavras, a autenticidade e o conhecimento da cultura, da teologia e das tradições judaicas facilitarão o processo de aproximação. Entretanto, para que essa aproximação seja respeitosa e significativa, é fundamental compreender a diversidade existente dentro do próprio judaísmo.
O primeiro passo é reconhecer que não existe “o judeu” como uma categoria homogênea. O povo judeu possui diferentes grupos étnicos e diferentes expressões religiosas, assim como o cristianismo. Entre os principais grupos étnicos estão os asquenazitas (originários da Europa Central e Oriental), sefarditas (historicamente ligados à Península Ibérica e, posteriormente, ao norte da África), mizrahim (provenientes do Oriente Médio) e Beta Israel (judeus etíopes). Também existem diferentes correntes religiosas dentro do judaísmo. Os ortodoxos procuram observar rigorosamente a halakhah (lei judaica) e preservar as tradições rabínicas. Entre eles, também há uma diversidade de grupos, como os hassídicos, ortodoxos modernos, litaim e religiosos nacionalistas. Os conservadores, por outro lado, buscam conciliar a observância da halakhah com mudanças históricas e culturais. Os reformistas (liberais) dão maior ênfase à autonomia individual e interpretam a tradição judaica de maneira mais flexível. Já os reconstrucionistas compreendem o judaísmo não apenas como religião, mas também como uma civilização e cultura em constante desenvolvimento.
Essa diversidade já demonstra que uma abordagem uniforme seria inadequada. É necessário compreender as crenças, os temores, as preocupações e a experiência particular de cada pessoa. Essa aproximação precisa levar em conta sua história e seu contexto. Há, portanto, ao menos cinco princípios básicos que precisam ser considerados ao compartilharmos nossa fé com um amigo judeu: (1) demonstrar verdadeiro interesse pela pessoa; (2) compreender suas crenças e preocupações; (3) estar sempre disposto a aprender; (4) reavaliar as próprias convicções; e (5) ter muita paciência.
Mais do que simples orientações metodológicas, esses princípios expressam a atitude que deve caracterizar nossa relação com aqueles a quem desejamos testemunhar. O primeiro deles é o interesse genuíno pela pessoa. A aproximação não pode ser meramente instrumental. Nosso amigo ou amiga precisa ser valorizado antes mesmo de qualquer resposta que possa dar à mensagem. É preciso amar de verdade.
O segundo princípio diz respeito à necessidade de conhecer a cosmovisão judaica e compreender aquilo que pode despertar receio ou resistência. Um judeu pode carregar consigo uma longa história de relações difíceis com o cristianismo. Ignorar essa trajetória é desconhecer uma parte importante de sua experiência. Precisamos entender, por exemplo, o impacto das perseguições promovidas por cristãos e do Holocausto sobre o imaginário coletivo judaico.
O terceiro princípio é estar disposto a aprender. A missão não acontece apenas quando ensinamos; também acontece quando ouvimos. Aproximar-se de judeus exige humildade para reconhecer que há muito a aprender sobre as tradições e a maneira como eles entendem a própria fé e interpretam as Escrituras.
O quarto princípio é igualmente importante: analisar e reavaliar nossas convicções. A missão pode nos levar a perceber que determinadas concepções que considerávamos inseparáveis da fé cristã são, na realidade, tradições ou interpretações que precisam ser examinadas novamente à luz da Bíblia. Um exemplo disso é a teologia da substituição/supersessionismo, que sustenta que a igreja substituiu Israel.⁵
E, por fim, é necessário ter paciência. O relacionamento não pode ser construído com pressa. É preciso permitir que a amizade se desenvolva, que as perguntas surjam espontaneamente e que o diálogo se aprofunde.
Colhendo os frutos
Depois que a semente germinar e o Espírito de Deus fizer com que o fruto amadureça, haverá uma grande colheita final, tanto de gentios quanto de judeus. Segundo Ellen White, “há uma grande obra a ser realizada em nosso mundo. O Senhor declarou que os gentios serão reunidos, e não apenas os gentios, mas também os judeus. Entre os judeus há muitos que se converterão, e veremos a salvação de Deus resplandecer como uma tocha acesa”.⁶
Esse é o mistério de Israel. O endurecimento que sobreveio a uma parte do povo não é definitivo. Paulo afirmou que ele permaneceria “até que tenha entrado a plenitude dos gentios” (Rm 11:25).⁷ Na sequência, o apóstolo declarou: “E, assim, todo o Israel será salvo” (v. 26). A implicação disso é que o mistério não aponta para o abandono de Israel, mas para a fidelidade de Deus à Sua promessa. Na colheita final de Deus, haverá uma multidão convicta da verdade: o todo Israel, isto é, a plenitude dos gentios e a plenitude dos judeus. Nessa obra, o remanescente fiel da oliveira, formado inicialmente por judeus que creram no Messias e depois por gentios enxertados pela fé, tem uma responsabilidade especial para com os ramos naturais que foram quebrados por causa da incredulidade. Mais do que isso, devem, na linguagem do apóstolo, despertar “ciúmes” nos ramos naturais com o objetivo de salvá-los (v. 11, 14).
Nesse contexto, Paulo também retrata o remanescente à luz da experiência de Elias (Rm 11:1-5). Quando o profeta julgava estar sozinho, Deus lhe mostrou que havia preservado um remanescente fiel: os sete mil homens que não dobraram os joelhos perante Baal. A experiência de Elias, portanto, não apenas revela que Deus preserva os Seus, mas também lembra que esse remanescente tem uma responsabilidade diante de Sua obra. Como parte desse remanescente que atravessou os séculos, precisamos vestir o manto do profeta e assumir esse chamado: ser a voz que clama no deserto, a voz que anuncia o evangelho eterno e diz à filha de Sião: “Eis que vem o seu Salvador; com Ele vem a sua recompensa” (Is 62:11). Quando cumprirmos essa missão, o mistério se cumprirá e a salvação resplandecerá como uma tocha (v. 1).
André Vasconcelos, gerente editorial associado na CPB e coordenador do trabalho das comunidades judaico-adventistas para o território da DSA
Referências
¹ Ellen G. White, Atos dos Apóstolos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021), p. 381.
² Ellen G. White, Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2023), p. 579.
³ Ellen G. White, Review and Herald, 29 de junho de 1905.
⁴ General Conference of The Seventh-day Adventists, “World Jewish Friendship Commitee”, em Global Mission to MV-ADCOM, Washington, DC: 17 de maio de 1994, linhas 5-17.
⁵ Veja Ellen G. White, Atos dos Apóstolos, p. 239. Richard Davidson, “Israel e a Igreja: Continuidade e Descontinuidade – I”, em A Missão da Igreja: Mensagem, Unidade e Propósito do Povo de Deus, ed. Ángel M. Rodríguez (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2026), p. 426.
⁶ Ellen G. White, Manuscrito 74, 1905. Curiosamente, Ellen White faz essa declaração no contexto de Romanos 11, um texto que, segundo ela, trata de uma obra que exige atenção: “A obra em favor dos judeus, delineada no capítulo 11 de Romanos, deve ser tratada com sabedoria especial. É uma obra que não deve ser ignorada. Nosso povo deve receber a sabedoria de Deus” (Carta 96, 1910).
⁷ Compare o sentido da expressão achri hou, “até que”, dessa passagem com seu uso em Lucas 21:24. Em Lucas, a expressão delimita o período em que Jerusalém seria pisada, indicando que essa condição permaneceria até que se cumprissem os tempos dos gentios, quando, então, a situação se modificaria.
