O ser humano sempre esteve em busca de respostas para sua existência, procurando compreender questões relacionadas à cura, às previsões e ao que ocorre após a morte. Nesse contexto, muitos povos originários desenvolveram lendas, fábulas e histórias a partir de sua relação com a natureza, da observação dos astros e até mesmo da busca por contato com espíritos. Dessa forma, seus rituais tentam suprir as necessidades de respostas para suas inquietações e para os mistérios que envolvem a existência humana. Como apresentar o evangelho de maneira relevante e fiel às Escrituras para essas culturas?
Quem responde a essa e outras perguntas, na entrevista desta edição, é um pastor nativo. A trajetória de Miraldo Fag-Tanh Oliveira com a fé adventista começou em 1992, e quatro anos mais tarde ele decidiu ser batizado. De origem guarani e kaingang, cursou Teologia e teve a oportunidade de exercer seu ministério entre povos indígenas, incluindo os karajá, na Ilha do Bananal, no estado do Tocantins. Atualmente pastoreando em Rio Preto da Eva (AM), Miraldo relata experiências vividas em comunidades indígenas e fala sobre a importância do respeito às culturas e o poder do evangelho na vida dos povos originários.
Como comunicar o evangelho de maneira sensível às culturas e formas de compreender o mundo próprias de cada povo indígena?
O processo da comunicação deve ocorrer de maneira gradativa. Precisamos atender às necessidades das pessoas e respeitar sua cultura. Obter o máximo de informações possível é necessário para estabelecermos um contato mais adequado. O tempo de convívio também deve ser levado em consideração. A cosmovisão dos povos originários é animista. Eles observam atentamente a natureza e as atividades sobrenaturais que acontecem em seu meio. No entanto, praticamente todos sentem a necessidade de um Deus, tanto que muitos mencionam, em suas próprias línguas, a expressão “O Grande Espírito”. E, na realidade, nós não levamos Deus até eles, pois o Espírito Santo já está trabalhando. Porém, os povos originários precisam ver Deus por meio do nosso testemunho e das nossas ações.
Tem crescido o número de iniciativas missionárias junto aos povos indígenas. Que conselhos daria para aqueles que desejam participar desses projetos? Por outro lado, o que pode ser feito para alcançar indígenas que vivem no próprio contexto urbano?
Uma iniciativa que a igreja tem adotado são os Institutos de Missões, que preparam e enviam missionários. Se alguém está interessado em participar de atividades missionárias entre povos originários, pode procurar seu Campo ou Associação para obter informações e orientações. Outra possibilidade é procurar a ADRA, que desenvolve projetos em vários lugares. Um deles está localizado na região da Ilha do Bananal, onde atuei. Vale destacar também que, segundo o último Censo Demográfico do IBGE, pela primeira vez, a maioria dos povos indígenas passou a viver em áreas urbanas. Ou seja, mais de 700 mil pessoas estão buscando seu espaço, trabalho, educação e o atendimento de necessidades básicas e, ao mesmo tempo, precisam ser assistidas. Diante desse cenário, é fundamental um mapamento dos grupos étnicos e das necessidades para oferecer assistência. Além disso, a criação de um ministério voltado aos povos originários seria um plano ideal para desenvolver ações específicas com esse público.
Como contribuir para que a fé cristã seja vivida pelos indígenas sem que isso signifique a perda de sua identidade cultural?
Para comunicar melhor o evangelho, o missionário deve conhecer bem quem receberá a mensagem, a fim de que as pessoas possam acolhê-lo e desenvolver uma relação de confiança. Respeitar a cultura é um bom começo. Além disso, é necessário amar as pessoas, adaptar-se ao ambiente, conhecer a língua e os costumes. Tudo isso contribui para o processo. Também é importante vivenciar, na medida do possível, a realidade daquela cultura, sem ferir os princípios do evangelho.
Poderia citar uma experiência que o tenha marcado no trabalho entre os povos originários?
Uma delas aconteceu quando cheguei à Ilha do Bananal, em 2010. Na ocasião, realizamos o projeto Impacto Esperança na região. Como os moradores ainda não haviam realizado a distribuição de literatura fora de suas aldeias, propus esse desafio. Descemos o rio Araguaia por cerca de 10 horas até chegarmos a uma aldeia Karajá. Saímos às 13h de sexta-feira e fizemos um culto de pôr do sol no meio do rio. Chegamos por volta das 22h, e fiquei admirado ao perceber que todos estavam nos aguardando. Eles haviam preparado alimentos e um local para montarmos nossas barracas. Um fato que ficou marcado em minha memória foi o presente que um dos irmãos recebeu – isso é muito importante, pois demostra respeito e gratidão. O presente era uma tartaruga, que seria levada para alimentar seus parentes que moravam na aldeia de onde havíamos partido. Quando me procuraram para saber minha opinião, conversei com eles sobre as leis de saúde que a Bíblia ensina. Mesmo assim, chegaram a colocar o animal no barco. Porém, quando subimos o rio e paramos para descansar um pouco durante o trajeto de volta, perguntei, em tom de brincadeira, se eles já haviam comido a tartaruga. Para minha surpresa, eles responderam que haviam colocado o animal de volta no rio. Então disseram: “Seguiremos a Palavra de Deus”. Perguntei: “E como vão se explicar?” Eles responderam: “Iremos comprar peixe de escama para dar às famílias”. Fiquei admirado com aquela postura de respeito ao estilo de vida adventista e de compromisso em honrar o templo do Espírito Santo, mesmo que essa atitude fosse contracultural. Foi uma experiência que demonstrou, na prática, que seguir os princípios bíblicos pode exigir renúncia.
Que esperança o evangelho oferece a comunidades indígenas que enfrentam perda de território, mudanças culturais e desafios sociais?
Os povos originários sempre viveram em estreita relação com seus territórios. No contexto atual, porém, a luta pela terra está diretamente relacionada à sobrevivência e à manutenção de sua cultura e identidade. Observo que os desafios sociais enfrentados por essas comunidades também oferecem oportunidades para atender e ajudar em diferentes necessidades, como o enfrentamento dos vícios, da prostituição, os cuidados com a saúde, entre outras questões que podem ser trabalhadas por meio da convivência e da presença. Dessa forma, é possível oferecer aquilo que Jesus oferecia: a esperança de uma nova pátria, onde não haverá morte nem doenças. Existe uma lenda guarani, uma das etnias à qual pertenço, que fala sobre a “terra sem males” e expressa o anseio por um lugar ideal, livre dos sofrimentos. Segundo a compreensão bíblico-adventista, essa esperança encontra seu cumprimento na promessa de novos céus e nova Terra (Is 65:17; Ap 21:1).
