Roger Scruton (1944–2020) foi um dos filósofos, escritores e intelectuais mais influentes do Reino Unido nas últimas décadas. Ele afirmava que a cultura é um depósito de conhecimento ético.¹ Para o pensador britânico, a cultura é a memória acumulada que nos revela quem somos e nos indica como devemos viver. Nesse sentido, a identidade não é algo que a pessoa constrói de forma isolada ou puramente autônoma (como sugere o liberalismo moderno), mas algo que é recebido e cultivado por meio do pertencimento a uma comunidade, que possui sua própria cultura. Por isso, uma das tragédias do nosso tempo é a perda do “lar espiritual”, o abandono da comunidade.

Ao falar sobre cultura, é importante estar consciente dos perigos da oikofobia,² isto é, a rejeição da própria herança e o desprezo pela cultura local e pelas instituições tradicionais. Trata-se do oposto da oikofilia, o amor ao lar e a disposição de proteger aquilo que é “nosso”, movido por um senso de pertencimento e responsabilidade.

E como acontece a rejeição da própria herança? Primeiro surge o desprezo pelo que é local: o indivíduo oikófobo se afasta de sua comunidade de origem para parecer “esclarecido” e “diferente”. Em seguida, vem a busca pelo que é alheio: culturas, sistemas e ideologias exóticas passam a ser idealizados simplesmente por não serem os próprios, enquanto nossas tradições são submetidas a um julgamento severo e implacável.

Mais adiante ocorre o ataque à tradição: símbolos, ritos e ensinamentos que estruturam a vida comunitária são enfraquecidos ou suprimidos; instituições são desmanteladas e a memória coletiva é desacreditada, deixando o povo vulnerável, errante e desenraizadado, sem o lar espiritual que sustenta sua identidade e sua vocação moral.

As instituições – da religião ao sistema educacional – são percebidas pelo oikófobo como estruturas de opressão que precisam ser demolidas, em vez de legados sagrados que devem ser reformados com prudência e preservados para futuras gerações. A cultura da rejeição mantém a pessoa em uma perpétua rebeldia adolescente.

Perda de identidade

Toda denominação religiosa nasce de um oikos, de um lar espiritual: um conjunto de doutrinas, hinos, ritos e formas de piedade que conferem sentido e coesão à comunidade. Com o passar do tempo, porém, pode ocorrer um processo de erosão: a perda de identidade. Qual é o seu sintoma? Ela começa quando o povo passa a considerar suas próprias tradições como “ultrapassadas” ou “limitadas” diante das correntes do mundo secular ou de movimentos mais populares. Surge, então, um estranho impulso pós-moderno de desprezar a própria casa e de renegar a herança recebida para ser aceito pelo “mundo” exterior. Busca-se o que é “inovador”, o que é “relevante” e, nesse processo, abandona-se a fidelidade que sustenta a comunhão e a vocação.

O que acontece em seguida é a desconstrução sem reconstrução. O oikófobo pode ser habilidoso na crítica, mas torna-se incapaz de edificar. Ele ataca os pioneiros e os princípios fundadores da denominação. Sob a bandeira da “atualização” e da “relevância”, desmonta a herança doutrinária até deixar a comunidade habitando uma casa sem paredes. A consequência é que uma denominação que renega sua própria história perde sua autoridade moral e sua razão de existir. Afinal, se nos igualamos ao mundo ao nosso redor, que necessidade há de manter uma identidade própria e proclamar a mensagem do povo remanescente de Deus?

O passo seguinte: abandona-se a doutrina e abraça-se um sentimentalismo universal. O oikófobo prefere lealdades abstratas e universais em vez de compromissos locais e concretos. Assim, na igreja, as doutrinas distintivas são deixadas de lado, dando lugar a um “vago amor universal” ou a um ativismo social desenraizado, que não exige compromisso com uma fé específica.

Isso acontece porque a oikofobia prospera na amnésia histórica. O esquecimento dos sacrifícios feitos pelos pioneiros leva as novas gerações a desprezar sua herança. Sem a memória do que aconteceu, sem a lembrança daqueles que construíram esse legado, não pode haver um futuro saudável nem uma identidade sólida.

Cultura do reino

O adventismo é, em sua essência, uma cultura do reino: um depósito de verdades proféticas e de um estilo de vida que nos oferece um lar e dão sentido à nossa existência. No entanto, vivemos sob a pressão da pós-modernidade, que procura transformar o pastor em um gestor de eventos, um motivador de multidões ou um inovador permanente. O “inovador permanente” corre o risco de esquecer a casa de origem. Quando a identidade se torna líquida e sujeita a reinvenções contínuas, o povo se desorienta e perde de vista o rumo de sua vocação.

E se estamos diante de uma crise de identidade – ou de oikofobia – o que devemos fazer? Nesta reflexão, proponho que contemplemos a figura de Esdras, um líder singular e erudito consagrado. O próprio Artaxerxes, rei da Pérsia, o chama de “escriba da Lei do Deus do Céu” (Ed 7:12). Esdras compreendeu, como poucos em sua época, que a liberdade do povo de Deus não consiste na assimilação cultural, mas na recuperação de sua identidade espiritual.

Observe que Esdras não voltou da Babilônia com um programa de novidades, mas com um projeto de restauração. Sua preocupação não era fazer algo novo, e sim recuperar aquilo que havia sido perdido. Sua identidade não se fundamentava na originalidade, mas na fidelidade.

Ao retornar a Jerusalém, Esdras enfrentou uma grave crise: o povo continuava sendo “judeu” de nome, mas havia perdido o conhecimento ético de sua fé. Tratava-se da “síndrome da Babilônia”: misturou-se com as nações, esqueceu a linguagem da promessa e assimilou costumes estranhos à sua herança. Não restavam muitos vestígios do oikos; ao contrário, reinava a oikofobia.

Para fortalecer a identidade, Esdras não recorreu a um novo plano de marketing nem a uma estratégia complexa. Em vez disso, propôs um projeto de restauração composto por três passos surpreendentemente simples, fundamentais para todo pastor, teólogo e administrador em tempos de perda de identidade. Esses três passos estão condensados em Esdras 7:10: “Porque Esdras pôs no coração o propósito de buscar a Lei do Senhor, cumpri-la e ensinar em Israel os Seus estatutos e os Seus juízos.”

A expressão “pôs no coração” descreve um ato de profunda reorientação espiritual. Esdras não se contentou com uma religiosidade superficial; ele desejou viver em plena harmonia com Deus, buscando sabedoria para cumprir Sua vontade.

Estudo, prática e ensino

Em seguida, o texto apresenta um “triângulo” formado por três ações: estudar, praticar e ensinar. A mensagem é clara: para que uma identidade resista à modernidade líquida, ela precisa da solidez de uma tradição que não apenas seja conhecida, mas também vivida e transmitida.

1. Estudar é a responsabilidade intelectual. Essa atitude vai muito além de uma atividade acadêmica passiva, como pesquisar ou investigar. Esdras dispôs o coração para estudar a Lei, isto é, para cultivar uma profunda paixão pela Palavra de Deus, que organiza o tempo, define o modo de vida, orienta os propósitos vocacionais e fortalece o zelo tanto pelos relacionamentos quanto pela missão.³

Esdras personifica o homem e a mulher de Deus que se destacam no conhecimento da Lei divina porque estão inteiramente comprometidos em estudá-la e ensiná-la, conscientes de que, antes de proclamar “Assim diz o Senhor”, é necessário conhecer profundamente “o que diz o Senhor”.⁴

Lembremos que Esdras era escriba. Sacerdotes e escribas não recebiam revelação direta de Deus – diferentemente dos profetas e apóstolos. Sua função era interpretar e ensinar a revelação já concedida.⁵ Assim, o “estudo” de Esdras não foi mera erudição; foi um ato de fidelidade. Ele se preparou por meio do conhecimento profundo da Lei para conduzir o povo à obediência a Deus, sabendo que a liderança legítima nasce da fidelidade à Palavra recebida.

A identidade adventista se fortalece quando pastores, teólogos e administradores se recusam a se contentar com clichês doutrinários. Precisamos voltar ao tesouro da Palavra para redescobrir nossa relevância profética; isso exige estudo sério, profundo e perseverante. Mas é necessário manter o equilíbrio: a erudição sem piedade prática degenera em arrogância, enquanto a piedade prática sem estudo pode transformar-se em fanatismo. Esdras integrou essas duas dimensões no rigor da investigação das Escrituras, em um compromisso que molda a mente, o coração e a comunidade.

Estudar é voltar à Fonte. Isso é de suma importância: o pastor que deixa de ser discípulo da Palavra perde o direito de ser mestre da igreja. Além disso, a crise de identidade começa quando substituímos o rigor do “Assim diz o Senhor” pela comodidade do “Assim pensa o mundo”. Esdras não buscava informações para completar um sermão ou redigir um relatório; buscava fundamentos para sustentar uma nação em ruínas.

2. Praticar é a responsabilidade ética. O verbo “cumprir” (v. 10) denota a aplicação da Lei divina à vida, e não sua mera compreensão teórica. Esdras não apenas estudou a Lei do Senhor; ele a colocou em prática. O termo implica uma decisão deliberada de viver em conformidade com aquilo que a Lei prescreve.

O conhecimento ético se perde quando não é aplicado no cotidiano. Por isso, “praticar” remete à obediência. A identidade não se sustenta apenas pelo que proclamamos do púlpito, pelo que ensinamos nas salas de aula ou pelo que deliberamos nos concílios. Não. A identidade é preservada pelo que fazemos no escritório administrativo, no distrito pastoral, na universidade, na editora, nos estúdios de TV e rádio, no hospital, na vida privada e em todos os demais ambientes em que servimos. A coerência – a congruência entre doutrina e conduta – é a única apologética que a cultura contemporânea reconhece e respeita.

Tudo isso envolve um perigo: uma administração, uma teologia e um ministério pastoral pragmáticos, que sacrificam princípios em nome da conveniência, destroem a identidade mais rapidamente do que qualquer apostasia doutrinária. Praticar a Lei é o mais elevado ato de resistência diante da cultura da conveniência e da subjetividade do eu. Ao obedecermos à Verdade, declaramos que nossas ideias, preferências e inclinações devem se submeter aos mandamentos e princípios sagrados das Escrituras.

3. Ensinar é a responsabilidade com o discipulado. O verbo “ensinar” (v. 10) significa muito mais do que transmitir informações; implica capacitar, formar e conduzir os crentes à justiça e ao amor a Deus.⁶ No caso de Esdras, o estudo, a prática da Lei e o ensino constituem o segredo de sua eficácia como líder: um ministério que instrui a partir da experiência vivida e capacita a comunidade a viver em conformidade com a vontade divina.⁷

O aspecto crucial é que esses três elementos operam como um conjunto integrado. A ordem correta é: estudar, praticar (obedecer) e, então, ensinar. Esse triângulo demonstra que Esdras não foi apenas um erudito distante, um administrador eficiente ou simplesmente um pastor habilidoso. Ele foi um mestre exemplar; e, por isso mesmo, precisava ser um praticante daquilo que ensinava. E quem pratica não pode se limitar a demonstrar: deve encarnar aquilo que espera ver em seus discípulos.

Conclusão

Diante dos desafios do mundo de hoje, não basta conhecer o texto bíblico de forma isolada. Os teólogos e pastores de hoje também precisam estudar as correntes culturais contemporâneas – a pós-modernidade, o relativismo, o transumanismo e outras tendências de pensamento, a fim de evitar respostas prontas e superficiais. O estudo exige que a identidade adventista não seja uma mera repetição de fórmulas do século 21, mas uma resposta renovada, consistente e biblicamente fundamentada às questões existenciais contemporâneas. Estudar é discernir as feridas da cultura para aplicar o bálsamo da Palavra.

Além disso, existe o risco de que a estrutura institucional obscureça a vivência do evangelho. Por isso, precisamos nos lembrar de que a identidade adventista deve se manifestar no estilo de vida. Se pregamos a justiça, nossas igrejas e instituições devem ser modelos de dignidade no tratamento das pessoas, equidade e respeito. Se pregamos o amor e a bondade, nossas igrejas e instituições precisam demonstrar ternura, compaixão e consideração pelas pessoas, em todas as circunstâncias. Se pregamos honestidade e transparência, todos os pastores e obreiros, independentemente de sua função ou posição, devem viver com integridade e clareza. Se pregamos igualdade, todos devem ser tratados de maneira justa, sem corporativismo ou favorecimentos indevidos; a justiça e a imparcialidade precisam caracterizar tanto a conduta institucional quanto o ministério pastoral.

Por fim, pastores e educadores enfrentam o desafio de ensinar verdades absolutas em uma linguagem que dialogue com uma geração visual, cética e fragmentada. Ensinar já não consiste apenas em ministrar aulas ou transmitir conteúdo; é também criar espaços de diálogo e reflexão. Precisamos avançar de um ensino meramente informativo para um ensino transformador, utilizando novas plataformas, linguagens e narrativas sem diluir a mensagem do terceiro anjo, para que a identidade adventista seja compreensível, relevante e atraente para o século 21.

Modelo para o ensino

Neemias 8:7 e 8 apresenta um modelo fundamental para o ensino bíblico e o crescimento espiritual. Nessa passagem encontramos a essência do verdadeiro ensino: ensinar não consiste apenas em ler as palavras, mas em desvendar seu significado. A partir desse relato, podemos extrair pelo menos três pilares do ensino transformador:

1. Clareza

A Palavra de Deus deve ser apresentada sem ambiguidades. O mestre tem a responsabilidade de remover os obstáculos que impedem que a mensagem seja compreendida corretamente.

2. Contextualização

Ensinar é conectar a verdade eterna ao presente. É explicar o “porquê” e o “para quê” dos mandamentos divinos, transformando conhecimento em sabedoria.

3. Compreensão

O objetivo final é que cada pessoa possa dizer: “Agora entendo”. Quando o povo compreendeu, o resultado foi arrependimento genuíno e profunda alegria (v. 9-12).

Como líderes, nossa missão não é acumular informação teológica, mas servir de ponte. O ensino poderoso é aquele que permite que a Bíblia deixe de ser apenas um livro antigo e se torne uma voz viva que transforma o coração, porque o amor e a vontade de Deus finalmente foram compreendidos.

Pastores, teólogos e administradores são mestres, responsáveis pela alfabetização adventista da nova geração. Se não ensinarmos nossa cultura – o sábado, o santuário, o estilo de vida cristão e os demais fundamentos da fé –, a cultura contemporânea ocupará esse espaço. Ensinar a identidade adventista não significa impor um peso do passado, mas entregar a nossos filhos a bússola bíblica que lhes permitirá saber quem são diante de Deus, em um mundo que tenta convencê-los de que podem ser aquilo que desejarem.

O pastor não é apenas um administrador de igrejas ou instituições; é o guardião de uma memória sagrada que precisa ser transmitida. O maior sucesso pastoral não se mede por edifícios ou estatísticas, mas pela fidelidade com que a próxima geração reconhece sua identidade na Palavra de Deus. E tudo isso depende do ensino.

Se nosso ensino não produz uma contracultura, não estamos proclamando a Palavra; estamos apenas adornando a tradição. Se, como igreja, nossa instrução não gera uma contracultura visível, é porque trocamos nossa herança por um prato de suposta relevância social.

O pastor, o teólogo e o administrador adventista que, ao ensinar, procuram ser “contemporâneos” ou “relevantes” à custa de sua identidade acabam se tornando irrelevantes para ambos os mundos: para o adventismo que abandonam e para o mundo que tentam conquistar.

Adolfo Suárez, professor de Teologia no seminário da Universidade Adventista do Prata, na Argentina

Referências

1 Breneman, Ezra, Nehemiah, Esther, p. 129, 130.

2 Roger Scruton, An Intelligent Person’s Guide to Modern Culture (South Bend, IN: St. Augustine’s Press, 2000), p. 1.

3 Embora o termo tenha surgido no contexto da psiquiatria para descrever o medo do lar, Scruton o incorporou à filosofia política e à sociologia para diagnosticar o que considerava uma patologia cultural das sociedades ocidentais contemporâneas.

4 Zack Eswine, Preaching to a Post-Everything World: Crafting Biblical Sermons That Connect with Our Culture (Grand Rapids, MI: Baker Books, 2008), p. 133, 134.

5 Tiberius Rata, Ezra-Nehemiah: A Mentor Commentary, Mentor Commentaries (Ross-shire, Scotland: Mentor, 2010), p. 17.

6 Eswine, Preaching to a Post-Everything World, p. 133, 134.

7 Mervin Breneman, Ezra, Nehemiah, Esther, The New American Commentary (Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1993), p. 129, 130.