Se eu pudesse eleger os grandes líderes da Bíblia, certamente o nome de Moisés encabeçaria a lista: amigo de Deus, legislador sábio, intercessor amoroso e profeta “poderoso em palavras e obras” (At 7:22). No entanto, mesmo com notáveis qualidades administrativas, falhou em um ponto: sua estrutura organizacional era excessivamente centralizada. Em um dia comum no deserto, permanecia julgando o povo “desde a manhã até o pôr do sol” (Êx 18:14). Seria isso abnegação? Zelo? Andar a segunda milha? Para seu sogro, Jetro, tratava-se de um “erro de matemática”.
O nome Jetro, em hebraico, significa “excelência”, “abundância”. Ele era “sacerdote e príncipe de Midiã, [e] também era um adorador de Deus” (Ellen G. White, Patriarcas e Profetas [CPB, 2022], p. 207). Ao longo de 40 anos, conviveu com Moisés – período em que este aprendeu a lição da mansidão e a arte de “contar” ovelhas. Ali, na quarentena da privação, o hebreu “tirado das águas” casou-se com Zípora, filha do líder midianita, e teve dois meninos: Gérson e Eliézer. Sem dúvida, Moisés aprendeu muito com Jetro; ainda assim, precisava refinar seu método de trabalho.
Após visitar Moisés no monte Horebe e passar um dia com ele, Jetro aconselhou: “Não é bom o que você está fazendo. Com certeza todos ficarão cansados, tanto você como este povo” (Êx 18:17, 18). Com essas palavras, ele nos ensina que até mesmo os homens de Deus têm a constante necessidade de crescer, ajustar e aprender. Felizmente, Moisés foi sensível e “atendeu às palavras de seu sogro” (Êx 18:24). A consultoria e as “operações matemáticas” de Jetro foram valiosas para Moisés e continuam indispensáveis para o ministério pastoral hoje:
Somar: acrescentar pessoas certas. Jetro orientou Moisés a procurar “entre o povo homens capazes, tementes a Deus, homens que amam a verdade e odeiam a corrupção” (Êx 18:21). Liderar bem começa somando pessoas certas ao processo. Não se trata de quantidade, mas de qualidade. Líderes eficazes entendem que o crescimento saudável exige a presença de pessoas comprometidas com os valores do Reino.
Subtrair: remover excessos. Moisés estava sobrecarregado, tentando resolver sozinho todos os problemas. A liderança sábia aprende a subtrair aquilo que não é essencial. Isso inclui demandas desnecessárias, preocupações e até o orgulho de querer controlar tudo. Subtrair, portanto, é um ato de humildade, saúde e discernimento.
Dividir: compartilhar responsabilidades. O conselho de Jetro foi claro: “Coloque-os como chefes do povo: chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez, para que julguem este povo em todo tempo” (Êx 18:21, 22). Dividir responsabilidades não enfraquece a liderança; pelo contrário, a fortalece. Quando um líder descentraliza e compartilha o peso, favorece o desenvolvimento orgânico do grupo.
Multiplicar: gerar novos líderes. O resultado final desse processo é a multiplicação. Moisés ficou com as causas graves, enquanto os demais líderes julgaram as mais simples. Ao delegar e investir em outros, Moisés não apenas resolveu um problema imediato, mas formou uma estrutura de discipulado duradoura. A verdadeira liderança, portanto, não se mede pelo que o líder faz sozinho, mas por sua capacidade de formar novos líderes.
Essa “matemática” precisa ser replicada em nosso ministério. Ellen White advertiu: “O Senhor atua imparcialmente em todas as áreas de Sua vinha. São as pessoas que desorganizam Sua obra” (Testemunhos Para a Igreja [CPB, 2021], v. 7, p. 86). Que Deus nos dê sabedoria para não atrapalharmos Sua Organização.
Milton Andrade, editor da revista Ministério
