Com mais de 180 anos de história, a Igreja Adventista precisa, mais do que nunca, confrontar a questão de sua identidade histórica e teológica. Como movimento profético, o adventismo começou na primeira metade do século 19, em um contexto rural na costa leste dos Estados Unidos. Hoje, a denominação é um movimento mundial que ministra para uma sociedade cada vez mais urbana e, muitas vezes, hostil à religião. A igreja vive em um novo mundo, mas continua com a mesma missão. Sua missão e sua própria razão de existir estão intrinsecamente ligadas à sua identidade profética. Por isso, a discussão sobre identidade do adventismo é uma questão existencial.

As discussões sobre a identidade adventista normalmente envolvem o que nos difere dos outros movimentos religiosos. Embora isso seja natural e tenha o seu lugar – afinal, temos uma missão distinta como remanescente de Deus no tempo do fim –, essa abordagem pode levar a uma compreensão incompleta e até distorcida da identidade adventista. Para fazer justiça à sua própria reivindicação, a identidade adventista precisa ser biblicamente fundamentada, profeticamente engajada e missionalmente orientada.

Biblicamente fundamentada

Nossa identidade é definida por Deus no ato da criação. De acordo com Gênesis 1:26, Deus criou a humanidade à Sua imagem (tselem) e semelhança (demut). Embora essas duas palavras sejam usadas de forma intercambiável ao longo do Antigo Testamento, seu emprego nesse contexto sugere que a imagem de Deus abrange tanto aspectos concretos quanto abstratos. À luz do relato da criação, ser “humano” significa ser parecido com Deus. Assim, a serpente ofereceu a Eva algo que ela já possuía (Gn 3:5): ser “como” Deus fazia parte da natureza intrínseca do ser humano. Em outras palavras, ser como Deus já fazia parte de sua identidade.

Na tentativa de ser como Deus do jeito errado, a humanidade se tornou como a serpente. Sem a intervenção divina, estaria para sempre aliada a Satanás (Gn 3:15). A perda da identidade original fica evidente nos primeiros momentos após a queda. Ela se manifesta na ruptura do relacionamento com o Criador, com a humanidade e com o meio ambiente (Gn 3:9-19). O primeiro homicídio (Gn 4:8-16) foi apenas a demonstração inicial do potencial para a maldade que a raça humana desenvolveu ao seguir os passos de um novo “pai” (Jo 8:44).

Portanto, o objetivo central da redenção é a restauração da imagem de Deus, ou, em outras palavras, a reparação da nossa identidade. Ellen White escreveu: “O tema central da Bíblia, em redor do qual giram todos os outros, é o plano da redenção, a restauração da imagem de Deus no ser humano”. Assim, de certo modo, quem Deus é provê a resposta sobre quem nós somos; em Deus, a humanidade encontra sua verdadeira identidade.1

As Escrituras usam uma quantidade incontável de títulos, adjetivos e metáforas para descrever Deus. Entre todos esses, há pelo menos quatro substantivos e dois adjetivos que, respectivamente, retratam de maneira categórica a essência e o caráter de Deus.

Em primeiro lugar, Deus é espírito (Jo 4:24). No contexto do diálogo com a mulher samaritana, Jesus destaca que, como ser espiritual, Deus não está sujeito às limitações humanas. A humanidade foi criada à imagem de Deus, mas não tem a imagem de Deus; em outras palavras, ela é apenas semelhante a Ele.

Em segundo lugar, Deus é amor (1Jo 4:8). Embora a gramática grega não apresente essa afirmação como uma definição exaustiva de Deus, é evidente que o amor pertence essencialmente à Sua natureza. Assim, o amor não é apenas mais uma atividade no repertório divino; ele descreve tudo o que Deus faz.

Em terceiro lugar, Deus é santo (Sl 99:9). De maneira direta, Deus Se autodescreve como santo cinco vezes no livro de Levítico (Lv 11:44 e 45; Lv 19:2; Lv 20:26; Lv 21:8). “Santo” é também o título preferido de Isaías para Deus (40 vezes). No mesmo livro, Deus é adorado com a repetição tripla do adjetivo “santo” pelos serafins (Is 6:3), cujo refrão reaparece em Apocalipse 4:8. Como um Deus santo, Ele não tolera o mal em nenhuma de suas formas, independentemente da quantidade. Sua ira contra o pecado é o resultado direto da combinação de Sua natureza amorosa e santa.

Finalmente, Deus é justo (Dn 9:14). A justiça é um aspecto essencial do caráter moral de Deus, que se manifesta de modo concreto em Suas intervenções em favor do Seu povo (Ap 15:3).

Biblicamente falando, a restauração da imagem de Deus na humanidade envolve refletir, em nossa dimensão, os atributos divinos que caracterizam Sua essência e Seu caráter. A identidade adventista deve incluir esses atributos: amor (Jo 13:34), santidade (Lv 19:2) e justiça (1Pe 3:12).

Em Sua vida, Jesus veio mostrar o que significa ser humano. Ele veio revelar nossa verdadeira identidade. Esse papel de Cristo já é evidente na cena do juízo de Daniel 7, em que os reinos do mundo são descritos como bestas híbridas lutando por domínio. À medida que a sequência histórica da visão se desenrola, esses aspectos animalescos se tornam mais brutais e anômalos. Contudo, o domínio é dado a “Alguém como um Filho do Homem” (Dn 7:13) — o título preferido de Jesus nos evangelhos. O Segundo Adão veio para mostrar o ideal da humanidade. Assim, ao imitarmos Cristo, nossa identidade original é restaurada. Isso só é possível por meio do trabalho do Espírito Santo, o agente divino que restaura no crente a identidade perdida.

Por isso, é essencial compreender que Cristo está no centro da identidade adventista. Deixá-lo de lado não significa apenas cair no legalismo; significa apresentar um retrato incompleto — e, pior ainda, distorcido — do nosso chamado. O chamado do remanescente no tempo do fim envolve a restauração da identidade perdida no Éden.

Profeticamente engajada

O surgimento da Igreja Adventista como remanescente no tempo do fim foi profeticamente anunciado (Ap 10). Ela surge para restaurar a verdade que, por anos, havia sido lançada por terra pelo chifre pequeno (Dn 8:12). Assim, o adventismo não é apenas mais uma opção no cardápio religioso da atualidade; seu papel é determinado por Deus a partir de sua identidade profética. Uma igreja profeticamente engajada compreende seu lugar na história e está comprometida com a restauração da verdade sobre quem Deus é e quem nós somos.

Desse modo, as crenças adventistas distintivas estão intimamente relacionadas à restauração da identidade perdida e ao seu papel profético nos últimos dias. Elas podem ser divididas em quatro áreas: antropologia (o que é o ser humano); soteriologia (o que o ser humano pode ser); escatologia (o que o ser humano será) e ética (o que o ser humano, pela graça, é).

Antropologia. O ser humano foi criado por Deus no sexto dia de uma semana literal. Tanto Adão quanto Eva foram criados física e moralmente perfeitos, sem inclinação para o mal. Como clímax da obra criada, eles refletiam a glória de Deus. Contudo, em rebelião contra o Criador e instigados por Satanás, comeram do fruto que Deus havia proibido, colocando-se ao lado do inimigo. Como resultado, a humanidade perdeu seu lugar no Éden e a imortalidade (que era condicional à sua fidelidade), e a morte passou a todos os seus descendentes. Na morte, o ser humano retorna ao pó e permanece inconsciente até a ressurreição final. Em sua condição caída, a humanidade está perdida para sempre.

Soteriologia. Imediatamente após a queda, o plano da redenção é revelado a Adão e Eva (Gn 3:15): a semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente. O sentido da palavra semente passa de coletivo (descendência), na primeira parte do verso, para singular (descendente), na segunda metade. Jesus, o Descendente da mulher por excelência, vence de uma vez por todas a serpente ao assumir o lugar da humanidade e pagar o preço pelos seus pecados. Sua vitória na cruz foi completa (estado), mas não concluída (processo). Como sacrifício, Sua morte foi suficiente; contudo, à luz do ritual do santuário, ainda havia um trabalho a ser realizado pelo sacerdote, que, como representante do povo, entrava no santuário com o sangue ou a carne do animal inocente. Após a ressurreição, Cristo ascendeu ao Céu para ministrar diante do altar de incenso os méritos por Ele obtidos, “vivendo sempre para interceder” (Hb 7:25). Em Cristo, a humanidade encontra o caminho de volta e tem sua identidade restaurada.

Escatologia. Para assegurar à humanidade a restauração da identidade perdida no Éden e manter evidente a justiça de Seu caráter, Deus conduz um juízo pré-advento em benefício do restante da criação que não aderiu ao plano falido de Satanás. Esse juízo, que começou em 1844, culmina com a destruição final dos poderes das trevas e com a admissão dos remidos no reino consumado de Cristo (Dn 7:22). No juízo pré-advento, Jesus demonstra a nova identidade dos salvos, selada pelo Espírito e comprada com Seu sangue. Após a conclusão desse juízo, Cristo retorna de forma visível para buscar os remidos, que permanecerão no Céu por mil anos, antes de regressarem definitivamente à Terra, a qual será restaurada após o juízo final.

Ética. A salvação é retratada no Novo Testamento como uma realidade presente, pelo menos em seu estado inaugurado. Hoje, os filhos de Deus são chamados a viver a ética do Reino, pela graça de Cristo e pelo poder do Espírito. Há pelo menos dois aspectos cruciais da ética do Reino no contexto da soberania divina. Ambos estão presentes no Éden, a observância do sábado é o mais poderoso lembrete da nossa identidade perdida. É uma proclamação no tempo sobre o nosso verdadeiro lar. Além disso, a soberania divina se estende ao nosso corpo, o qual somos chamados a cuidar como bons mordomos, não apenas evitando alimentos proibidos (Lv 11), mas sendo sábios ao agir em conformidade com as leis divinas inscritas na natureza.

A identidade adventista profeticamente engajada inclui cuidadosa atenção ao dom de profecia. Por meio do ministério de Ellen White, a igreja tem recebido preciosa orientação. O espírito de profecia é uma marca da igreja remanescente (Ap 12:17; Ap 19:10) e, por isso, parte integrante de sua identidade. Como profeta para o tempo do fim, Ellen White é mais do que uma autora devocional, e seus conselhos são mais do que conselhos; eles expressam a vontade de Deus. A negligência atual na leitura e no estudo dos Testemunhos invariavelmente vem acompanhada de perda e perigo espiritual.

Missionalmente orientada

Quando a identidade adventista é biblicamente fundamentada e profeticamente engajada, sua correta compreensão resulta em uma igreja comprometida com a missão. A falha em entender o papel profético da igreja tem levado muitos à apatia e à indiferença. Como é evidente na história de Israel, identidade e missão são dois lados da mesma moeda. A perda da identidade resulta na inabilidade em cumprir a missão; por sua vez, a inabilidade em cumprir a missão leva à irrelevância.

Nesse ponto, por meio do ensino e do exemplo, o pastor adventista tem um papel crucial. Kevin Vanhoozer compara de forma apropriada o trabalho do pastor-teólogo ao de um oftalmologista, que ajuda as pessoas a enxergar com clareza a nova humanidade em Cristo. Segundo o autor, “ajudar as pessoas a entender quem são, por que estão aqui e para onde devem ir na jornada que é a vida talvez seja o ministério mais importante que exista”.2

Conclusão

Quando a identidade adventista é biblicamente fundamentada, a compreensão do papel profético da igreja como remanescente no tempo do fim torna-se clara. Uma vez compreendido esse papel, a igreja é motivada a orientar tudo o que faz para o cumprimento da missão. No centro dessa missão está a proclamação de que, em Cristo, a identidade perdida pode ser restaurada.

Assim como no Éden, a nova identidade em Cristo nos é atribuída. Nós mesmos não a produzimos; ela é um dom da graça. Por isso, essa identidade é cristocêntrica, pois é Cristo que veio revelar quem Deus é e como a humanidade pode voltar a ser.

Jônatas Leal, diretor do Salt e Espírito de Profecia para a Igreja Adventista na América do Sul

Referências

1 Ellen G. White, Educação(Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021), p. 87.

2 Kevin Vanhoozer, Hearers and Doers: A Pastor’s Guide to Making Disciples Through
Scripture and Doctrine
(Bellingham, WA: Lexham, 2019), p. 95.