Uma frase popular diz: “Quando um palhaço se muda para um palácio, ele não se torna rei; é o palácio que se transforma em circo”. Em muitos aspectos, o cristianismo de nossos dias perdeu seu sentido bíblico e se tornou uma espécie de espetáculo circense. Nesse “cristianismo circo”:
- não há altar, há palco;
- não há adoradores, há público;
- não há compromisso, há superficialidade;
- prega-se um Jesus que nada exige e um evangelho que não transforma;
- busca-se popularidade, não relevância;
- prega-se o “Eu não a condeno”, mas não o “vá e não peque mais”;
- prometem-se milagres imediatos e satisfação garantida;
- não se explicam os princípios bíblicos; há apenas entretenimento;
- há amor pelas promessas, mas rejeição pelos processos;
- a Palavra é moldada à cultura;
- busca-se a salvação, mas sem rendição;
- preocupa-se mais em atrair multidões do que em formar discípulos;
- a igreja é um show com luzes, fumaça e uma breve menção bíblica entre as músicas;
- o brunch é indispensável, mas o estudo da Bíblia é opcional;
- não há púlpito para abrir a Palavra, mas há espaço para os instrumentos da banda;
- não existe exposição clara da Bíblia, apenas uma busca por “experiências espirituais”;
- propõe-se que cada pessoa alcance sua “melhor versão”, quando Deus nos chama a “nascer de novo”;
- há temas sobre os quais não se prega, por medo de desagradar;
- reduz-se Cristo a um coach motivacional;
- e se esquece de que o evangelho não foi dado para ser adaptado, mas para ser obedecido.
Enquanto os espectadores são entretidos por uma religião açucarada, a verdade bíblica é diluída, o senso de chamado é ofuscado e a missão é interrompida. Assim, a igreja deixa de ser um corpo vivo e passa a ser apenas uma plateia passiva.
O rei e o sumo sacerdote
Em 2º Crônicas 26, encontramos uma narrativa que se assemelha a uma montanha-russa espiritual, marcada por momentos de sucesso, motivação e, por fim, profunda decepção. O capítulo apresenta a história do rei Uzias, um homem cujo currículo se aproxima ao de gigantes da fé como Davi, Salomão e Josias. Suas atitudes, especialmente em seus primeiros anos de reinado, são tão instrutivas que poderiam compor um verdadeiro manual de liderança:
- Foi um rei consagrado a Deus (2Cr 26:4).
- Buscou diariamente os conselhos divinos e prosperou (2Cr 26:5).
- Não hesitou diante das batalhas (2Cr 26:6,7).
- Cuidou do povo e investiu em segurança interna, construindo muros e defesas (2Cr 26:9,10).
- Valorizou o trabalho e os frutos da terra – foi “amigo da agricultura” (2Cr 26:10).
- Treinou e equipou um exército poderoso de mais de 300 mil homens (2Cr 26:13,14).
- Teve visão de futuro, promoveu a criatividade e ganhou grande reconhecimento (2Cr 26:8,15).
Se a história terminasse aqui, certamente hoje teríamos muitos “Uzias” em nossas igrejas. Mas esse brilhante líder se exaltou, rebelou-se contra Deus e entrou no templo para queimar incenso (2Cr 26:16). Quem ousaria deter o “quase perfeito” rei naquele ato herético?
Foi então que surgiu o corajoso Azarias, sumo sacerdote e amigo de Deus, que não hesitou em confrontar o poderoso Uzias – o homem que havia feito (quase) tudo certo. Acompanhado por outros 80 sacerdotes, Azarias declarou firmemente que o rei não tinha autoridade para oferecer incenso (2Cr 26:17, 18). Imediatamente, Uzias foi ferido com lepra e permaneceu assim até sua morte. Ficou isolado em uma casa separada, enquanto seu filho Jotão passou a governar em seu lugar (2Cr 26:19-23).
Uzias, cujo nome significa “O Senhor é minha força”, acabou derrotado pela presunção. Tomado pela vaidade, passou a considerar a si mesmo como a fonte da força, esquecendo de quem vinha o poder que o havia tornado tão bem-sucedido. Assim, tornou-se um autêntico palhaço no palácio.
Lição
Precisamos revitalizar nossa identidade bíblica e profética como adventistas. Não precisamos de uma igreja que entretenha, mas de uma igreja que proclame a verdade presente com fidelidade e coragem.
Não é tempo de silêncio diante de uma sociedade eticamente e moralmente raquítica. É tempo de levantar a voz com precisão, amor, firmeza e fidelidade à Bíblia. Deus não espera menos de nós. O desafio dado por Paulo a Timóteo é também o nosso:
“Diante de Deus e de Cristo Jesus [nosso Salvador e Senhor], que há de julgar vivos e mortos [o juízo faz parte do plano da salvação], pela Sua manifestação e pelo Seu reino [ênfase na segunda vinda], peço a você com insistência [temos uma missão]: que pregue a palavra [com fundamento bíblico], insista, quer oportuno, quer não [nosso ministério não tem horários], corrija, repreenda, exorte [não fomos chamados para agradar, mas para fazer o correto] com toda a paciência [amor] e doutrina [firmeza]. Pois virá tempo [já chegou] em que não suportarão a sã doutrina [tentar pregar sobre temas delicados hoje]; pelo contrário, se rodearão de mestres segundo as suas próprias cobiças [sempre há quem procure ideias não bíblicas], como que sentindo coceira nos ouvidos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade [infelizmente acontece], entregando-se às fábulas [muitos cristãos creem em qualquer coisa]. Mas você seja sóbrio em todas as coisas, suporte as aflições, faça o trabalho de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério” (2Tm 4:1-5).
A igreja e o mundo precisam que reafirmemos nossa identidade fundamentada na Bíblia, ainda que haja “coceira nos ouvidos”. A verdade que incomoda também cura. A verdade que confronta também ilumina.
Somos chamados a pregar, escrever e viver aquilo que cremos: o sábado como dia santo; a criação em sete dias literais; o casamento heterossexual e monogâmico; a mortalidade da alma; a Igreja Adventista do Sétimo Dia como povo remanescente; o ministério profético de Ellen White; o ministério sacerdotal de Cristo após 1844; e o estilo de vida cristão livre de tabaco, álcool, drogas, estimulantes, joias, tatuagens e vestimentas impróprias.
Para Azarias, teria sido mais fácil aceitar a neutralidade teológica, “deixar para lá”, ceder, não ser tão firme. “É só o rei queimando um pouco de perfume”, diria um líder fraco, acomodado e liberal. Mas Azarias se apegou ao “Assim diz o Senhor”, e não às ideias sedutoras do pensamento humano. Assumiu o risco da fidelidade, chamou o pecado pelo nome e não se ajustou às novas tendências, mas à vontade de Deus.
Conclusão
Enquanto os palhaços continuam fazendo malabarismos doutrinários – impondo ideias populares, porém antibíblicas –, nós devemos permanecer firmes na verdade de Cristo. O grande pregador Charles Spurgeon afirmou: “Chegará o tempo em que, em vez de pastores alimentando as ovelhas, haverá palhaços entretendo bodes”. Ao que tudo indica, esse tempo já chegou.
Deus não nos chamou para pastorear uma igreja “descolada”, mas uma igreja fiel. Hoje, Ele nos convida a ser como Azarias: comprometidos e sustentando bem alto o estandarte da identidade adventista. Aceita o chamado?
Pablo Ale, editor da Ministério, edição da ACES
