Um dos fatores imprescindíveis para o êxito da liderança eclesiástica é a unidade. A liderança espiritual da igreja local, envolvendo pastor e ancionato, deve expressar unidade entre seus componentes. Esse é o desejo de Deus para aqueles que estão à frente de Sua igreja neste mundo. Em Sua oração sacerdotal, Cristo declarou: “Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo, enquanto Eu vou para junto de Ti. Pai santo, guarda-os em Teu nome, que Me deste, para que eles sejam um, assim como Nós somos um” (Jo 17:11).
No contexto dessa unidade mencionada por Cristo em Sua oração, Ellen White afirmou: “A unidade da igreja é a prova convincente de que Deus enviou Jesus ao mundo para o salvar; um argumento que os ímpios não poderão controverter. É por isso que Satanás se esforça continuamente para evitar essa união e harmonia entre os crentes, a fim de que os descrentes, observando essa apostasia, dissensão e contenda que reina entre os cristãos professos, aborreçam a religião e sejam confirmados em sua falta de arrependimento.”1
Uma das crenças fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia é a Unidade no Corpo de Cristo. O livro Nisto Cremos declara: “A igreja é um corpo com muitos membros, chamados de toda nação, tribo, língua e povo. Em Cristo somos uma nova criação; distinções de raça, cultura e nacionalidade, e diferenças entre altos e baixos, ricos e pobres, homens e mulheres não devem ser motivo de dissensões entre nós. Todos somos iguais em Cristo, o qual por um só Espírito nos uniu em uma comunhão com Ele e uns com os outros; devemos servir e ser servidos sem parcialidade ou restrição. Mediante a revelação de Jesus Cristo nas Escrituras, compartilhamos a mesma fé e esperança e estendemos um só testemunho para todos. Essa unidade encontra sua fonte na unidade do Deus triúno, que nos adotou como Seus filhos.”2
Em Sua oração, Cristo expressa o desejo de que Seus discípulos – o núcleo da igreja cristã – sejam unidos. Essa unidade abrange uma dimensão multiforme: antropológica, sociológica, eclesiológica e teológica. Contudo, acima de todas, sua dimensão essencial é espiritual, pois tem como fundamento a unidade que prevalece na própria Divindade: “Assim como Nós somos um” (Jo 17:11).
Liderança compartilhada
Cristo é o fundamento da igreja (Mt 16:18); mas, neste mundo, ela é conduzida por seres humanos. Já nos tempos do Antigo Testamento, sob a liderança de Moisés, Deus estabeleceu um sistema mais amplo de liderança para guiar Seu povo (Êx 18:13-27), pois “estando Jetro [sogro de Moisés] no acampamento, logo viu como eram pesadas as responsabilidades que repousavam sobre Moisés. Manter a ordem e a disciplina naquela multidão vasta, ignorante e indisciplinada era realmente uma tremenda tarefa.”3 Posteriormente, a igreja do Novo Testamento também adotou um sistema de liderança compartilhada. Isso ocorreu por ocasião do estabelecimento do diaconato (At 6:1-5).
O modelo de liderança de Deus para Sua igreja é a liderança compartilhada. Na igreja local, o pastor e o ancionato devem ter consciência de que, para conduzir a igreja no cumprimento de sua missão, é essencial compartilhar sua liderança. Como líder responsável por todo o distrito, o pastor não pode carregar sozinho “o piano da igreja”. No antigo Israel, essa foi, a princípio, a mentalidade de Moisés (Êx 18:15-17).
Em alguns distritos, especialmente no início do ministério, o pastor pode enfrentar dificuldades para partilhar a liderança espiritual com os anciãos. Contudo, ao longo de sua trajetória ministerial, ele precisa assimilar o seguinte princípio: “Liderança cristã é liderança compartilhada. Isso significa trabalhar com um estilo que compartilha e distribui os vários papéis e funções da liderança entre todos os membros do grupo, de acordo com as capacidades de cada pessoa e disposição de participar. É a liderança que incentiva, equipa e treina cada passo no grupo para a edificação e o desenvolvimento da igreja, para que se torne o corpo que Deus deseja que ela seja.”4
Liderança envolve relacionamento
Quando se exerce uma liderança compartilhada, o relacionamento mútuo é consequência natural. No início de Seu ministério, Cristo chamou Seus discípulos para estarem com Ele. Ellen White declarou: “Jesus chamara os discípulos para que pudesse enviá-los como Suas testemunhas, a fim de contarem ao mundo o que Dele tinham visto e ouvido. Nunca um ser humano havia sido chamado para um dever tão importante como o deles; somente a missão do próprio Cristo superava essa responsabilidade. Deviam ser colaboradores de Deus na salvação do mundo. Como no Antigo Testamento os 12 patriarcas ocupavam o lugar de representantes de Israel, assim os 12 apóstolos seriam os representantes da igreja cristã.”5
As narrativas dos evangelhos dão testemunho do companheirismo de Cristo com Seus discípulos ao longo de Seu ministério (Mt 9:19; Mc 1:38; Lc 6:12-19; Jo 2:1). Em algumas circunstâncias, Ele os enviou sozinhos, mas, na maioria das vezes, estava sempre com eles.
A parceria entre pastor e ancionato requer união e companheirismo. Na igreja local, esses elementos são imprescindíveis para uma liderança marcada pelo poder de Deus. Uma liderança com esse perfil motiva a igreja a avançar cada vez mais no cumprimento de sua missão. Afinal, a própria igreja, como corpo de crentes, espelha-se em sua liderança local. A serva do Senhor escreveu: “Toda a nossa obra neste mundo deve ser efetuada em harmonia, amor e unidade. Sempre devemos manter o exemplo de Cristo diante de nós, andando em Suas pegadas. União é força, e o Senhor deseja que esta verdade seja sempre revelada em todos os membros do corpo de Cristo. Todos devem ser unidos em amor, mansidão e humildade de espírito. Organizados numa sociedade de crentes, com a finalidade de combinarem e difundirem sua influência, compete-lhes trabalhar como Cristo trabalhou. Devem sempre manifestar cortesia e respeito de uns para com os outros. Todo talento tem seu lugar, e deve ser mantido sob o domínio do Espírito Santo.”6
Tomando como referência o exemplo de Cristo com Seus discípulos, é possível identificar duas dimensões essenciais dessa parceria na igreja local:
1. Relacionamento interpessoal. É fundamental que o pastor reconheça que os anciãos são seres humanos marcados pelas fragilidades da vida. Eles têm famílias para cuidar e, sobretudo, tudo para salvar; são pessoas que têm compromissos diversos e estão sujeitos às dificuldades do cotidiano. Por isso, deve haver entre eles um relacionamento amistoso e respeitoso. A recíproca também é verdadeira: os anciãos também devem ter essa mesma visão em relação ao pastor. Nesse contexto, José Assan Alaby, doutor em Liderança, afirmou: “A liderança transformadora também envolve as relações entre líderes e liderados; todavia, ambos são elevados a um nível superior de motivação e moralidade, justamente como resultado dessa interação relacional.”7
Outro aspecto importante é que tanto o pastor quanto os anciãos devem ter consciência de que foram chamados por Deus para pastorear o rebanho do Senhor ( At 20:28; 1Pe 5:2,3; Ef 4:11,12).
2. Relacionamento eclesiástico. Na igreja local, pastor e anciãos são parceiros; ambos são líderes na mesma igreja. A liderança do pastor abrange todo o distrito, enquanto a do ancião se concentra na igreja local. Sobre os anciãos, afirma-se que “[eles] devem ser reconhecidos pela igreja como sólidos líderes espirituais e devem ter boa reputação na igreja e na comunidade. Na ausência de um pastor, os anciãos são os líderes espirituais da igreja e, por palavras e ações, devem trabalhar para levá-la a uma experiência cristã mais profunda e completa.”8
Pastor e anciãos, portanto, exercem liderança espiritual na mesma comunidade. Naturalmente, podem surgir divergências diante de determinadas situações na igreja. Quando isso ocorrer, elas devem ser tratadas e superadas de maneira cristã, com espírito de diálogo, humildade e respeito mútuo.
Sugestões práticas9
Liderar a igreja envolve aprendizado e experiência que se desenvolvem diariamente. A liderança cristã demanda a transferência do campo teórico para o campo da ação. No que se refere a pastor e anciãos:
- Como equipe, reúnam-se regularmente para orar e acompanhar os desafios da igreja.
- Sempre que possível, organizem juntos as seguintes atividades: pregação, visitação, treinamentos, reuniões administrativas, entre outras.
- Tenham uma visão panorâmica do progresso de cada departamento e ministério da igreja, principalmente do processo de discipulado, como elemento central.
- Deem atenção especial às crianças, aos adolescentes e aos jovens, principalmente aos recém-batizados e àqueles que, lamentavelmente, estão se afastando da igreja.
- Discutam e planejem estratégias para envolver todos os membros no cumprimento da missão.
- Organizem os cultos, assegurando que sejam bem conduzidos.
- Estejam atentos ao planejamento das atividades da igreja e às orientações da Associação/Missão.
- Ajustem, se necessário, o planejamento do Ministério de Mordomia Cristã e avaliem a gestão dos recursos financeiros da igreja.
Nesse contexto, a título de exemplo, é fundamental que o pastor, antes da reunião da Comissão Diretiva da Igreja, compartilhe a agenda com o ancionato. Não se trata de um “esquema” para levar para a reunião algo já pronto e definido. Ao contrário, trata-se de organizar, de forma clara e equilibrada, os itens da pauta, a fim de que haja ordem, coerência e equilíbrio na condução da reunião.
Lamentavelmente, em algumas igrejas, a reunião da Comissão Diretiva tem sido palco de discussões acaloradas, em razão da dificuldade de alguns membros em ouvir e dialogar de forma respeitosa diante de opiniões diferentes. Isto não deveria acontecer entre diretores de departamentos e ministérios da igreja; muito menos entre o pastor e o ancionato. Em uma Comissão Diretiva, ver pastor e anciãos digladiando por questões, muitas vezes insignificantes, é um péssimo exemplo para os demais membros dessa comissão e, em última instância, para toda a igreja. Em muitos casos, esse cenário é resultado da ausência de uma reunião prévia para o alinhamento e ajuste da agenda.
No contexto da igreja local, especialmente quando o pastor é recém-chegado ao distrito, é importante que o ancião o ajude a compreender a realidade da igreja. Afinal, teoricamente, pelos quatro anos seguintes, o pastor será o líder principal daquela comunidade.
Conclusão
Os tempos atuais requerem líderes cristãos dispostos a trabalhar em equipe. Isso valoriza as pessoas, com seus talentos e dons. A igreja é uma comunidade que deve crescer em todos os seus segmentos, e esse crescimento demanda a participação conjunta de todos.
Na igreja local, o trabalho floresce quando pastor e anciãos se unem em favor do crescimento da igreja, especialmente em sua espiritualidade. John Maxwell, especialista em liderança, afirmou: “Quando se trata de crescimento, é melhor voar em conjunto do que tentar emigrar para o sul sozinho”,10 pois, como disse alguém certa vez: “Trabalhar em equipe divide o trabalho e multiplica os resultados”.
Cristo orou para que Seus discípulos fossem um, assim como Ele e o Pai são um. A resposta a essa oração poderá ser dada ainda hoje em seu distrito pastoral, por meio do relacionamento entre você e seus anciãos.
Pense nisso!
Nerivan Silva, editor de livros e periódicos na Casa Publicadora Brasileira
Referências
1 Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021),
v. 5, p. 528, 529.
2 Associação Ministerial da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Nisto
Cremos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2020), p. 226.
3 Ellen G. White, Patriarcas e Profetas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2022),
p. 252.
4 Associação Ministerial da Divisão Sul-Americana, Guia do Ancionato (Tatuí, SP:
Casa Publicadora Brasileira, 2025), p. 68.
5 Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira,
2021), p. 225.
6 Ellen G. White, Princípios Para Líderes Cristãos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira,
2024), p. 31.
7 José A. Alaby, “Líderes Devem Ser Filósofos?”, em Jayr F. de Oliveira e Robson M.
Marinho (orgs.), Liderança: Uma Questão de Competência (São Paulo: Saraiva, 2005),
p. 27.
8 Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Manual da Igreja (Tatuí, SP:
Casa Publicadora Brasileira, 2025), p. 83.
9 Essas sugestões foram extraídas e adaptadas do artigo “Equipe pastor-ancião”, Revista
do Ancião 3 (2021), p. 8, 9.
10 John C. Maxwell, A Jornada do Sucesso (São Paulo: Mundo Cristão, 2000), p. 127
