Com a entrada do pecado no mundo, provações, doenças e morte passaram a fazer parte da experiência humana (Gn 3:18 e 19). Ao comentar sobre a queda de Adão e Eva, Ellen White declarou: “O pecado deles abriu as portas a uma enxurrada de desgraças sobre o mundo”.1
No exercício de seu ministério, o pastor realiza diversas cerimônias, incluindo a unção de enfermos, um ato de intercessão e cuidado espiritual que pode ser realizado não apenas por ele, mas também pelos anciãos da igreja.
Aspectos linguísticos
Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, a Bíblia fala sobre a unção. O verbo hebraico mashah significa “ungir”, “untar”, “consagrar”. A palavra é encontrada pela primeira vez no Antigo Testamento em Gênesis 31:13. Esse uso ilustra a ideia de ungir algo ou alguém como um ato de consagração.
O teólogo Gerard Groningen acrescentou: “A ideia de ungir relaciona-se ao conceito de alisar com a mão […] também [dá] a ideia de esfregar o corpo. Fricção com gordura ou óleo é indubitavelmente o conceito expresso em algumas passagens bíblicas, onde se diz que objetos como bolos ou escudos são ungidos (Is 21:5). O uso mais comum de mashah é expressar a ideia de unção que é feita pelo derramamento ou aspersão de óleo sobre objetos ou pessoas. Esse ato de derramar óleo tem profunda significação no Antigo Testamento.”2
O Novo Testamento usa o verbo grego aleiphō, que significa “untar”, “esfregar”, “revestir”, “friccionar”. Outro verbo grego utilizado é chriō, que significa “ungir com óleo”. Dessa palavra deriva o termo christós, que significa “ungido” e é aplicado a Cristo.3 Ele foi ungido para desempenhar Seu tríplice ministério: ensinar, pregar e curar (Mt 4:23; Lc 4:18 e 19; Dn 9:25).
Com base nesses aspectos linguísticos, o ato da unção era profundamente significativo. O Comentário Bíblico Adventista afirma: “Em harmonia com a lei mosaica, o azeite era usado para introduzir profetas, sacerdotes e reis em seu ministério.”4 O óleo, que já tinha um uso secular, principalmente na cozinha (Lv 2:7; Lv 9:4; Nm 11:8; 1Rs 17:12) e como combustível (Êx 35:8, 14 e 28), passou, então, à dimensão do uso religioso, servindo para coroar reis (1Sm 10:1; 1Rs 1:39; SI 89:20), consagrar sacerdotes (Êx 40:15; Lv 7:35) e profetas (Is 61:1), dedicar locais para a adoração (Gn 28:18; Lv 8:10; Dn 9:24), oficiar matrimônios (Ez 16:9), ungir os enfermos antes da morte e os cativos prestes a ser libertos (2Cr 28:15), e preparar o corpo para o sepultamento (2Cr 16:14).5
Unção de enfermos
O apóstolo Tiago escreveu: “Alguém de vocês está doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o [aleíphantes] com óleo, em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará. E, se houver cometido pecados, estes lhe serão perdoados” (Tg 5:14 e 15). Com base nesse texto, Ellen Cavanaugh comentou que a unção “deve compreender três elementos fundamentais: a visitação, a cura e a reconciliação”.6
Uma lição importante nesses versículos bíblicos é que a visita, especificamente para a realização de uma cerimônia de unção, deve ser solicitada. “O ato da unção é um evento intensamente pessoal, dirigido às necessidades específicas e pedidos de uma pessoa”.7
Além disso, essa cerimônia é um momento de profunda reflexão, tanto para o paciente (se estiver lúcido) quanto para todos os presentes. A solenidade da ocasião é revestida da certeza de que uma pessoa está sendo colocada nas mãos de Deus, e de que Ele agirá de acordo com Sua soberana vontade. Ellen White escreveu: “Todos nós desejamos respostas imediatas e diretas às nossas orações, e somos tentados a ficar desanimados quando a resposta demora ou vem de uma forma que não esperávamos. Mas Deus é demasiado sábio e bom para atender às nossas petições sempre do modo e no tempo exatos em que desejamos. Ele fará mais e melhor por nós do que realizar sempre os nossos desejos.”8
Embora a cerimônia da unção tenha como foco específico o enfermo, ela também deve impressionar positivamente as pessoas ao redor, principalmente se houver alguém sem vínculo religioso ou de outra confissão religiosa.
Outro ponto importante a ser mencionado é que “a unção não se aplica apenas a doenças, mas também ao perdão. […] Não está reservada como o último rito para os moribundos, nem há poder místico no óleo em si”.9
Experiência
Joe (nome fictício) era um jovem pastor de uma cidade no interior. Preocupado com o bem-estar espiritual de suas ovelhas, ele sempre as visitava com o objetivo de fortalecê-las na fé.
Certa manhã, Joe recebeu uma ligação. Do outro lado da linha, alguém muito angustiado disse: “Pastor, meu pai está nas últimas. Você poderia fazer a unção dele?” Por um instante, Joe parou e pensou: Unção? Ele se lembrou do ensinamento que diz: “O doente é instruído a chamar ‘os anciãos da igreja’. Conquanto a prática seja de que o próprio indivíduo enfermo solicite a unção, pode ser que a doença impeça a pessoa de fazer o pedido. Em tais casos é aceitável que a família ou os amigos façam a solicitação.”10
A verdade é que o pastor Joe não tinha muita experiência com essa cerimônia. Até então, ele havia realizado basicamente duas: o batismo e a Ceia do Senhor. Mas agora, fazer a unção de uma pessoa prestes a morrer? Não era algo comum para o jovem pastor.
Enquanto pensava, a pessoa do outro lado da linha aguardava a resposta. Finalmente, Joe respondeu: “Sim, irmão, eu vou, ainda hoje.” Após desligar o telefone, ele imediatamente começou a planejar os detalhes daquela cerimônia com a qual não estava familiarizado.
O pai da pessoa que havia ligado estava acamado em casa. Conforme o combinado, Joe realizou a unção naquele mesmo dia. Ele se preocupou com todos os detalhes da cerimônia, mas não imaginava o impacto que esse ato teria sobre ele. Foi algo verdadeiramente impressionante!
Naquele dia, o pastor Joe aprendeu lições que marcariam profundamente seu ministério. Ele compreendeu que, durante a cerimônia, é importante perguntar à pessoa sobre sua vida espiritual, seu relacionamento com os outros, se existe alguma mágoa e a necessidade de perdoar alguém. Essas são questões cruciais para o momento da unção. “O enfermo precisa ser encorajado a fazer um autoexame, antes da unção, sendo-lhe garantidos o amor, a graça e o perdão de Deus.”11
O pastor Joe também entendeu, naquela ocasião, que a unção é um momento de submissão, um ato de aceitar a vontade de Deus, seja ela qual for. Ellen White escreveu: “Deus conhece o fim desde o princípio. Conhece de perto o coração de todos os seres humanos. Lê todo segredo da alma. Sabe se aqueles por quem se fazem as orações haveriam ou não de resistir às provações que lhes sobreviriam se continuassem a viver. Sabe se sua vida seria uma bênção ou uma maldição para si mesmos e para o mundo.”12
Outro ponto importante que Joe aprendeu é que, embora seja um momento de muita ansiedade e expectativa, também pode ser um momento de esperança. Ellen White declarou: “Ao termos orado pela restauração de um enfermo, seja qual for o desfecho do caso, não percamos a fé em Deus. Se formos chamados a sofrer a perda, aceitemos o amargo cálice, lembrando-nos de que é a mão de um Pai que o traz aos nossos lábios.”13
De fato, aquela cerimônia impactou profundamente o coração do pastor Joe. Além de tudo isso, ele aprendeu que, ao ministrar esse tipo de cerimônia, é essencial estar em comunhão com Deus. O sacerdote desempenha um papel fundamental nesse momento em que uma pessoa, na maioria dos casos, se encontra entre a vida e a morte.
Ellen White e sua família foram ungidos diversas vezes devido a problemas de saúde. Em 21 de maio de 1892, por exemplo, o ato foi ministrado pelos pastores A. G. Daniels e G. C. Tenney, acompanhados de suas esposas.
Planejamento
A organização é um fator imprescindível no ministério de todo pastor. Obviamente, existem circunstâncias que surgem de repente ou de forma imprevista, e muitas vezes nos pegam de surpresa. Um exemplo disso são os funerais. Talvez seja por isso que muitos dizem que “ninguém se prepara para um funeral”.
Para uma cerimônia de unção, é possível realizar um planejamento mínimo a partir do momento em que se recebe o convite ou chamado. Isso envolve, principalmente, a definição do local em que a cerimônia será realizada. Por exemplo, se for em uma casa, tudo será mais fácil. Porém, se for em um hospital, o planejamento requerá alguns detalhes a mais.
Se o enfermo estiver em um hospital adventista, a realização da cerimônia será mais adequada, pois a instituição, sendo da igreja, está familiarizada com o ritual. Mesmo assim, é necessário fazer arranjos com a equipe médica e os enfermeiros. Afinal, “tudo deve ser feito com decência e ordem” (1Co 14:40, NVI). Se for em outro hospital, o planejamento exigirá maior adequação. Por exemplo, se o enfermo dividir o quarto com outro paciente, é necessário um diálogo com os enfermeiros para avaliar a possibilidade de isolar o enfermo a ser ungido. Outro aspecto importante é a equipe que acompanhará a cerimônia, composta por parentes do enfermo, anciãos e diáconos. Em geral, o número de pessoas em uma ocasião como essa é limitado. Todo esse planejamento deve ser ajustado às normas do hospital. Isso é imprescindível, não apenas para garantir um bom testemunho em uma instituição médica não confessional, mas também para facilitar futuras cerimônias de unção que possam ser realizadas ali.
Aspectos práticos
A cerimônia da unção tem seu aspecto prático. O Guia Para Ministros recomenda os seguintes itens:14
1. O oficiante deve começar com uma explicação do propósito da unção. Isso requer prudência e tato em tudo o que será dito ao enfermo.
2. Antes do ato da unção, devem ser lidos textos bíblicos, como Tiago 5:14 a 16; Salmo 103:1 a 5; Salmo 107:19 e 20; Marcos 16:15 a 20. A leitura bíblica deve reafirmar que Deus tem poder para curar, perdoar e salvar. A oração pela cura é sempre respondida afirmativamente àqueles que creem, seja de forma imediata ou na volta de Jesus.
3. O ajoelhar-se para a oração deve ser a postura preferida, mas ao redor de um leito hospitalar isso pode ser impraticável.
4. Caso o enfermo deseje orar, deve ser-lhe permitido, mas que ele ore primeiro.
5. Se alguém do grupo presente deseja orar, deve ser-lhe permitido, mas que seja na sequência da oração do enfermo.
6. A última oração deve ser de quem está ministrando a cerimônia (pastor ou ancião). “Temos na Palavra de Deus instruções relativas à oração especial pelo restabelecimento de um doente. Mas tal oração é um ato soleníssimo, e não devemos realizar sem atenta consideração.”15
7. O pastor ou ancião, ao concluir a oração, deve colocar o óleo sobre a testa do enfermo, simbolizando o toque do Espírito Santo de um modo específico e especial.
Se quem está ministrando a cerimônia é o pastor, e ele está acompanhado por anciãos ou outros oficiais da igreja, ele deve aproveitar esse momento para torná-lo extremamente pedagógico para esses líderes. Trata-se de um momento prático do ministério pastoral.
Conclusão
A Bíblia diz: “Então, na sua angústia, clamaram ao Senhor, e Ele os livrou das suas tribulações. Enviou-lhes a Sua palavra, e os sarou, e os livrou do que lhes era mortal” (Sl 107:19, 20). Ellen White comentou: “Deus está hoje tão desejoso de restabelecer os doentes como quando o Espírito Santo proferiu essas palavras por intermédio do salmista. E Cristo é agora o mesmo compassivo médico que era durante Seu ministério terrestre. Nele há bálsamo curativo para toda doença, poder restaurador para toda enfermidade. Seus discípulos de nossos dias devem orar pelos doentes tão verdadeiramente como os de antigamente.”16
Nerivan Silva, editor da Revista do Ancionato
Referências
1 Ellen G. White, Patriarcas e Profetas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2022), p. 37.
2 Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento (Campinas, SP: Luz Para o Caminho, 1995), p. 17, 19.
3 Ver Spiros Zodhiates, The Complete Word Study Dictionary – New Testament (Chattanoga, TN, AMG Publishers, 1992), p. 1483, 1485.
4 Francis D. Nichol (ed.), Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2010), v. 1, p. 704.
5 Tânia M. L. Torres, “O Rito da Unção: Sucessos e Fracassos de uma Modalidade de Cura Religiosa na Igreja Adventista do Sétimo Dia” (tese de doutorado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2017), p. 42.
6 Ellen P. Canavaugh, ”Anointing as the Iconic Interruption of the Loving God” (tese de doutorado, Universidade Duquesne, 2009), citado por Torres, “O Rito da Unção”, p. 42.
7 Guia Para Ministros Adventistas do Sétimo Dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2010), p. 189.
8 Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021), p. 139.
9 Guia Para Ministros Adventistas do Sétimo Dia, p. 188.
10 Guia Para Ministros Adventistas do Sétimo Dia, p. 189.
11 Guia Para Ministros Adventistas do Sétimo Dia, p. 190.
12 White, A Ciência do Bom Viver, p. 138.
13 White, A Ciência do Bom Viver, p. 140.
14 Guia Para Ministros Adventistas do Sétimo Dia, p. 190, 191.
15 White, A Ciência do Bom Viver, p. 136, 137.
16 White, A Ciência do Bom Viver, p. 135, 136.